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Entrevista de Joaquim Antunes, com Joaquim Teixeira e Orlando Camacho, Fotografias de João Ramalho | jul 11, 2016

Fernando Santos, treinador de futebol, revelou nesta entrevista a “alma” de português de eleição, o vigor de um homem de caráter e a espiritualidade de um cristão convicto. Fernando Santos nasceu em outubro de 1954. Formado em engenharia eletrónica e telecomunicações, é figura pública com nome credenciado em Portugal e no estrangeiro, como treinador de futebol.
Entre Atenas e Cascais conseguimos encontrar, por simpatia de Fernando Santos, tempo para uma sessão de fotografias que ilustram a entrevista que nos orgulhamos de publicar. Durante a entrevista, à pergunta se alguma vez tinha "cedido à tentação de substituir a sua fé por alguma fezada" a favor do clube que treinava, respondeu: "Desde o momento em que verdadeiramente encontrei a Cristo, nunca".
O Eng.º Fernando Santos é lisboeta? De que bairro?
Penha de França, mas vivo em Cascais há 23 anos.
No seu tempo de miúdo era na rua que jogava à bola, com a “bola de trapos”?
Sim, é verdade, de trapos, de papel, de madeira e às vezes até uma pedra servia.
Houve algum miúdo desse tempo que se tenha distinguido, mais tarde, como jogador?
Não. Alguns tinham grande jeito mas acabaram por não seguir uma carreira.
E o Fernando Santos jogou nalgum clube de primeira grandeza mesmo em escalões inferiores?
Sim, no Benfica e depois Estoril e Marítimo.
E como decorriam os estudos? Foi sempre bom aluno? Os pais consentiam que estudasse e jogasse ou exigiam contrapartidas para o deixarem jogar?
Normalmente. Felizmente fui sempre bom aluno. Quando fui jogar no Benfica tinha acabado de entrar para o Instituto de Engenharia de Lisboa e o meu pai exigiu um acordo (que não podia chumbar nenhum ano), acordo esse que eu cumpri.
Concluiu o curso de Engenharia no Instituto Superior Técnico sem percalços de maior?
Fiz Eletrónica e Telecomunicações no Instituto. Sem nunca ter chumbado.
Findos os estudos, começou logo a trabalhar na área da licenciatura ou prevaleceu o fascínio do futebol? Como é que aconteceu tornar-se treinador de futebol?
Quando terminei o meu curso, durante dois anos fui profissional de futebol, a partir de 1981 passei a desempenhar as funções de Diretor de Manutenção na Sociedade Estoril Plage (com base no Hotel Palácio no Estoril), onde me mantive até 1998, ano em que fui treinar o Futebol Clube do Porto. Mas, durante todos esses anos, continuei paralelamente como jogador profissional até 1986 e a partir daí como treinador de futebol.
Passei a treinador por acaso. Um grande amigo e meu colega de equipa, António Fidalgo, foi convidado para treinar a equipa (o Estoril Praia) e pediu-me para o ajudar nessa tarefa. Apesar de não ter muito tempo, não podia dizer não a um amigo e por isso aceitei. Ao fim de ano e meio, ele recebeu um convite para treinar na primeira divisão e saiu. Então a direção pediu-me para ficar até ao fim da época e acabei por ficar seis anos e meio.
«Nasci numa família típica portuguesa, católica mas sem nenhuma prática. Os valores que sempre me guiaram e guiam vêm do que os meus pais me ensinaram».
Já voltaremos a este capítulo do futebol a que tem dedicado, com êxito, grande parte da sua vida. Agora gostaria de abrir, se me permite, outro capítulo tão importante ou mais do que este e que tem que ver com a sua vida de “católico praticante” como agora se diz.
A sua educação foi católica? Cumpriu os rituais de iniciação cristã ou foi tardia a sua chegada à prática religiosa e à vivência da fé?
Sim a minha educação foi cristã. Fui batizado a 16 de janeiro de 1955 e depois frequentei a catequese, tendo feito a Primeira Comunhão e recebido o Crisma em maio de 1964. Depois disso e, durante muito tempo (até 1992), a minha prática resumia-se à oração diária ao deitar e idas à igreja só em casamentos e batizados. Com exceção da preparação para o casamento e preparação para o batismo dos meus filhos na qual participei com muito interesse.
Como era, neste campo, a vida familiar? Foi dela que recebeu o comportamento cristão de hoje?
Como disse, nasci numa família típica portuguesa, católica mas sem nenhuma prática. Mas seguramente que os valores que sempre me guiaram e guiam vêm do que os meus pais me ensinaram.
Julgo saber que o seu revigoramento católico se deu com a participação num curso de cristandade? Que tipo de movimento é esse? Tocou-lhe mesmo fundo?
É, como sabe, um movimento carismático da Igreja, cuja essência está voltada para a evangelização dos ambientes e serviço à Igreja.
Este movimento tocou-me muito.
Descobrir que Cristo está vivo em cada um de nós e no sacrário foi uma Graça enorme mas, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade, a partir do momento que me foi dito que Ele contava comigo e eu disse ‘sim’.
Desde aí, nunca mais deixou de praticar esta vertente católica?
Nunca mais deixei de ser um católico praticante ativo.
É verdade que, quando estava no Porto, era leitor da Palavra de Deus numa das Eucaristias celebradas na igreja das Antas?
Sim, mas já o era em Cascais e continuo a ser. Quando estou em Portugal vou normalmente à missa diariamente. Aqui [em Atenas], só ao domingo, por dificuldade.
Chegou a ser catequista?
Não, mas durante muitos anos fiz parte da equipa do Curso de Preparação para o Batismo de Cascais. Além disso, mantive-me sempre ligado ao Movimento dos Cursilhos de Cristandade, quer na frequência das ultreias e escola de responsáveis, quer como membro do secretariado do termo.
Uma curiosidade, se me permite: é verdade que traz consigo na palma da mão um pequeno crucifixo que aperta enquanto os jogos decorrem ou noutras circunstâncias da sua vida?
É verdade que trago comigo no bolso, todos os dias, o crucifixo que me foi entregue no dia 19 de março de 1994, dia final do meu Cursilho de Cristandade (o 411), quando foi dito que Cristo contava comigo. Para que nunca mais me esqueça do meu ‘sim’. Por isso, como calcula, ao longo de cada dia aperto-o muitas vezes . Mas não como “fezada”.
Alguma vez cedeu à tentação de substituir a sua fé cristã por alguma “fezada” milagrosa a favor do clube que treinava?
Desde o momento em que verdadeiramente encontrei a Cristo, nunca.
Há tempos o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa revelou preocupação pelo avanço de um racionalismo oitocentista e que faz escola em muitos meios universitários, “onde ser cristão é hoje uma absoluta raridade”. O que lhe pergunto é se no mundo do futebol a constatação é a mesma?
O futebol não é um mundo à parte e se, na sociedade atual, ser cristão (pelo menos assumido) é olhado como bicho raro, e até com algum desdém, naturalmente que o futebol não foge à regra, ainda por cima quando é dado a muitas pequenas superstições.
Como é que um católico lida com a fé (ou ausência dela) dos seus jogadores?
Com respeito, se quer ser respeitado na sua Fé.
Como é a prática católica num país onde prevalece a religião ortodoxa? Participa nas liturgias ortodoxas ou há alguma igreja católica aberta ao culto?
Numa igreja católica (há várias aqui em Atenas, e em outras cidades gregas). De resto, respeito pelas suas convicções, sem abdicar das minhas. Mas o mais importante é realçar que são muito mais as coisas que nos unem na Fé do que as que nos separam. Por isso digo com prazer que tenho vários sacerdotes e monges de quem sou amigo e com quem falo muito sobre estes temas.
Conhece alguma comunidade católica de gregos que ao domingo se reúna para celebrar a Eucaristia?
Sim, a comunidade onde estou inserido tem pessoas de várias nacionalidades, inclusive gregos. Em Tessalónica, onde vivi três anos, também é assim.
Os católicos são respeitados? Ou há alguma hostilidade?
Estou aqui desde 2001, toda a gente sabe que sou católico praticante e sempre fui respeitado.
«O futebol não é um mundo à parte e se, na sociedade atual, ser cristão (pelo menos assumido) é olhado como bicho raro, e até com algum desdém, naturalmente que o futebol não foge à regra, ainda por cima quando é dado a muitas pequenas superstições».
Voltemos então, se me permite, ao “campo de futebol” com meia dúzia de perguntas que vão deliciar os amantes do futebol. Entremos, pois, para começar, no Estádio do Dragão. Sendo benfiquista assumido, como lidou com o ‘portismo’, por vezes exacerbado, dos dirigentes do Futebol Clube do Porto (FCP) e da massa adepta? Como treinador de futebol, sou 200% adepto da equipa que treino. Portanto essa questão não se me coloca.
O que lhe diz o epíteto de «engenheiro do penta»?
Algo que ficará para sempre guardado e que, naturalmente, muito me honra.
Tendo treinado os três grandes, qual a ‘diferença específica’ do FCP?
São três enormes instituições. A diferença, na minha opinião, está na organização e liderança internas e nisso, seguramente, o FCP vai à frente há muito tempo. É verdade que nesses aspetos o Sport Lisboa e Benfica tem vindo a encurtar muito o espaço nos últimos anos. Espero que o Sporting Clube de Portugal também o faça rapidamente, pois faz falta ao futebol português.
Que diferença nota que existe entre o Pinto da Costa como homem público e como homem nas relações pessoais e no trato privado?
Como presidente, defende intransigentemente (à sua maneira) os interesses do seu clube e fá-lo muito bem. Extra futebol, o Jorge Nuno é um homem espetacular.
O Fernando Santos foi o português que, no desporto, melhor conseguiu fazer a “quadratura do círculo” ao conjugar na perfeição clubismo e profissionalismo. Como foi possível ser benfiquista e ter sido campeão pelo Porto?
Como já disse, quando treinava o FCP era adepto do FCP, como hoje, apesar de ser português, com grande orgulho, se a Grécia (que é a minha equipa) jogar contra Portugal, quero que a Grécia ganhe e ficarei contente.
No Porto ganhou o pentacampeonato em 1999, duas Taças de Portugal e uma Supertaça. Quando chegou à “catedral” com um palmarés tão invejável, acreditou que tinha os adeptos, permita-me a expressão, no “papo”?
Não, pois sabia de antemão que havia muitos adeptos que nunca me perdoaram eu ter ido treinar o FCP. Mas como acredito no meu trabalho, acreditava que podia conquistá-los. E penso que durante vários meses assim aconteceu, éramos a equipa que melhor futebol jogava em Portugal. Mas acabou por não acontecer totalmente, pois, não havendo títulos, o resto não conta.
Mas tenho a consciência que fiz um muito bom trabalho em todos os aspetos.
No Benfica, sopesando os dois clubes, foi mais ou menos feliz que no Porto?
Quanto aos títulos não há dúvidas; quanto ao resto foram dois momentos de grande felicidade na minha vida profissional.
A mística benfiquista é mesmo o pulsar de uma “nação”?
Que ninguém tenha dúvidas, essa é uma realidade constatável em todo o mundo.
Depois cedeu o seu lugar a Mourinho. Não acha que o seu trabalho também ajudou a catapultar o atual treinador do Real Madrid para o estrelato?
Não. O José é hoje considerado o “número 1” por mérito próprio, pelo seu trabalho.
Estamos quase a concluir. Não é fácil que um português tenha sucesso no exterior. Qual o segredo da sua boa performance na Grécia?
Profissionalmente, trabalho e a qualidade do mesmo. E, pessoalmente, respeitar sem permitir que nos faltem ao respeito.
Mesmo para concluir, a conversa já vai longa, pedia-lhe que deixasse aos jovens uma orientação que os ajude a atingir as metas que se propõem e outra aos pais e educadores para que ajudem os jovens a atingi-las.
Tenham confiança, acreditem que com trabalho e sacrifício podem alcançar os vossos objetivos. Deus a todos dá talentos e a nós compete-nos pô-los a render.
Aos pais direi que apoiem e incentivem os seus filhos. Os valores dos pais serão os deles amanhã.
E não esqueçam: nem todos podem ser grandes jogadores, mas podem seguramente ser grandes em muitas outras profissões.