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  • Teresa Vieira e Elmano Campina - Angola 2009

    by Vanessa Santos | jan 28, 2015
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    Eis-nos chegados a Angola… e o (re)contacto primeiro com a missão salesiana de Benguela. Muita coisa mudou por estes lados, mas outros aspectos continuam na mesma. Vêem-se crescer a ritmo acelerado algumas infra-estruturas, tais como, estradas principais, pontes, caminhos-de-ferro e alguns prédios. No entanto, fora desse aceleramento de alcatrão e betão, os nossos olhos captam o interior dos bairros com as suas gentes que continuam a viver o dia-a-dia com dificuldade, na pequena casa para uma família de mais de 10 pessoas. As ruas dos bairros estão (continuam) cheias de lixo, buracos e água deitada pelas mamãs depois de lavar a panela e ensaboar os filhos. De um lado cresce o país, do outro a miséria e a fome que subsistem naqueles que fazem, todos os dias, a história do povo de Angola. Caminhar por estes bairros, sempre atentos a onde colocamos os pés, dá alguma dor de alma quando se pensa num país tão rico como é Angola, mas sente-se no coração destes lugares o palpitar de uma nação jovem que se alegra com os outros numa partilha constante do pouco que se tem e do muito que se é e sente! Ao falarmos com os jovens sentimos na sua voz e no seu querer um acreditar num futuro bem melhor!

    A missão salesiana cresceu bastante, já tem dois edifícios com salas de aula para alunos da sétima à nona classe e para os adultos da alfabetização da primeira à sexta classe. Está em finalização o centro de formação profissional de mecânica e electricidade. Muitas são as pessoas que, todos os dias, circulam pela “aldeia” missionária, desde crianças que brincam com latas em forma de bolas de futebol até às mamãs que, à tarde, com os seus filhotes enrolados em panos nas costas, chegam com o seu cadernito para as aulas de alfabetização. Ao fim da tarde são proporcionadas aulas de música, teatro e informática.

    O calor é uma constante e ainda é Inverno, mas o maior calor que sentimos é o acolhimento das pessoas que nos tratam muito bem, como se fossemos da família. Pequenos gestos e palavras nos olhares que aquecem o coração e nos dão a presença de Deus, que acreditamos ser Amor, e que se manifesta nos pequenos passos missionários que vamos dando!

    No que diz respeito ao trabalho desenvolvido com e para as pessoas, mais especificamente na Escola de Dom Bosco, fomos “tratando” de alguns computadores, aulas de reforço de Matemática e Língua Portuguesa para os alunos da nona classe, ajuda aos alunos da 7ª, 8ª e 9ª classes que estão em época de provas, informatização, impressão e corte das provas e formação na área da Informática ao responsável da secretaria da escola. Foi uma boa experiência este contacto directo com os alunos e professores, num sistema diferente daquele que estamos habituados em Portugal, mas que nos incentiva a dar o nosso melhor para deixar algumas sementes! A par destas actividades escolares, fomos participando na vida da comunidade salesiana (oração, convívio, Eucaristia). Pouco a pouco fomos deixando marcas daquilo que somos e daquilo que fazemos para estar sempre ao serviço dos outros! Sentimos que somos mais quando estamos juntos na partilha de ideias, de ideais, de sonhos!

    Entregámos a partilha missionária que fomos recolhendo nas nossas comunidades paroquiais, fruto da animação missionária com as pulseiras, lápis e estrelas. A comunidade salesiana e os alunos da escola agradeceram o nosso gesto que transporta todas as pessoas que nas nossas Paróquias deram o seu contributo monetário, o seu carinho e apoio a esta causa! Obrigado a todos!

    E ao fim de um mês… voltámos ao ponto de partida deste trilho de voluntariado missionário em Angola. Trazemos no nosso coração o sentido que demos ao caminho neste mês em Benguela. Gostaríamos de descrever tudo aquilo que vivemos, presenciamos e fizemos, mas apenas com a fala do coração se pode exprimir! Vivemos momentos de alegria, mas também momentos de desafio aos nossos próprios sentimentos, por vezes, confusos na imensidão das situações que todos os dias se cruzaram connosco! Percorremos caminhos diversos, juntos, num mesmo ideal… ser mais pessoa e mais cristão num mundo que anseia por sendas de esperança procurando o rosto humano de Deus! Fica sempre o desejo de fazer mais, mas temos consciência de que um mês é um pequeno grão de areia nesta praia missionária!

    Em Cristo fomos, somos, seremos, simplesmente nós… nos trilhos do mundo e nas pegadas de Deus! Obrigado, nosso Deus, Pai e Amigo, por esta bênção de Amor e de Vida!

  • Leonida Milhões - Timor 2013

    by Vanessa Santos | out 31, 2014

    Nunira (70)

    “Viver é isto: ficar se equilibrando o tempo todo entre as escolhas e as consequências.”  Jean Paul Sartre

    Se voluntário é aquele que, de livre vontade, executa uma tarefa ou serviço não é menos verdade que voluntarioso é o amigo de fazer a sua vontade e, também, o  teimoso. Assim sendo tornamos, muitas vezes nossas causas em teimas  ou vice versa, pese embora, o tempo e disponibilidade postos ao serviço de outros e, mesmo sem estatuto de voluntário, todos fazemos voluntariado nos mais diferentes contextos.

    Exemplos de disponibilidade com tempo para partilhar, acompanhar, ouvir, estar e ser presença sempre surgem em nossas vidas quotidianas e, destes, alguns destacam-se pois deixam sua marca bem impressa durante essa passagem. Assim aconteceu com muitos cujas vidas cruzaram as nossas dando a segurança necessária à nossa caminhada apesar de, muitas vezes, não os termos valorizado visto ou sentido. Ao reclamar a falta de presença, em momento difícil, pois na areia só umas pegadas havia, surge a resposta: ”- Eu estava lá, se apenas vês umas pegadas é porque nesse momento Eu te levava ao colo.“  e lá estiveram, servindo de guia ou, fazendo coching,?? familiares, amigos, catequistas, párocos, chefes, professores, prefeitos e todos os que com seu trabalho, valores , exemplo e vida fizeram de nós aqueles que hoje somos.

    Agradecer suas vidas, sendo nosso dever, implica também a responsabilidade de continuar  cientes, como o poeta andaluz, “ de que não há caminho. O caminho faz-se caminhando.”  Então, nossos sonhos crescem e são projectos  que um dia podem ser realidade.

    Etapa a etapa amadurecem as ideias, organizamos o tempo, partilhamos em família e até, não raro, nos inscrevemos para continuar formação direccionada às necessidades que surgem e pretendemos minimizar. Um ano passado com a FEC e os voluntários da Fundação D. Bosco \ Projecto Vida foi,  não só, um enriquecimento pessoal como uma consciencialização de nossas vontades e limitações; um tempo de reflexão e amadurecimento mas e, sobretudo, a certeza de que não devemos usar “...velhos mapas para descobrir novos caminhos.” tal como refere Orgone mas investir na preparação  e confiar em Jesus e Sua Mãe SSª  para o acompanhamento da Missão a que nos propomos.

    Assim, após as despedidas e antecipando saudades se fizeram muitas horas de voo.  A “aventura” continua em terras de Timor onde dou aulas de português, no Instituto Filosófico de S. Francisco de Sales, a uma turma que iniciará o curso em Janeiro de 2014. São 17 alunos 13 Irmãos Salesianos, de diferentes Comunidades incluindo o Seminário Diocesano e 4 Irmãos Carmelitas. Depois há tempo livre que se aproveita para ver, rever e corrigir outros trabalhos, em português, tirar dúvidas pontuais em pequeno grupo ou individualmente, refazer estatutos, fazer o que vai aparecendo como, por exemplo, uma hora e meia de aula por semana, na Casa das Irmãs, mais …  VIVER  e agarrar saudades, as que vêm e as que ficam, não para “matar” mas para “tratar bem e deixar crescer” pois só se sentem de quem e do que gostamos. Sair do nosso cantinho e conforto, três dias de viagem, sempre em direcção contrária aos que mais amamos para integrar nova Família onde todos os hábitos são outros tal como é outra a cultura do país, a língua, os fusos e horários também não facilita nem ajuda até porque os primeiros mails recebidos davam conta da partida do Ambrósio, da Bia e da DªAssunção em viagem bem diferente da minha e tudo é necessário processar e gerir. As tecnologias (skyp , mail e facebook) provaram que não aproximando os que estão longe, pois estão sem rede sempre que necessitamos ou queremos, afastam muito os que estão perto uma vez que o tempo de espera é, quase sempre, duplamente perdido. Alguém, muito sábio, diz que “Quando pensamos ter todas as respostas a vida vem e altera todas as perguntas.” e Saramago diz que “Há coisas que não se podem explicar por palavras.” assim... não explico o sentir dúvida e alegria; medo e certeza; a solidão de cada momento no paralelo com a  oração, o cântico ou  a conversa em português.

    Os jovens? Esses, são iguais em todo o lado com sua sabedoria, alegria, irreverência, sonhos, dúvidas ou na partilha de saberes, sentimentos e emoções.
    As maiores dificuldades foram o calor, o medo dos mosquitos e, no final, a certeza de que se uma encomenda, com o carregador da máquina fotográfica e uns dvd`s, demora meses a chegar.... então estou mesmo isolada pois para visitar a Xana, no Suai, teria que fazer para cada lado 12 horas de viagem de carro mas ... quase sem estrada e contar que nos feriados o tempo não é problema  os transportes é que não existem....

    Após o cansaço da viagem e o primeiro contacto visual com a terra de Timor  lembrei o nosso Eça “Se a tua dor te aflige faz dela um poema.” Como a dor ainda não afligia, deu tempo de relembrar minha velhinha promessa perante o chefe Barros em 1968, nossa lei e os princípios. Revisitei o Douro, ou Torga,  cuja escrita se difunde a partir de S. Leonardo de Galafura,   “recomeça cada dia, se puderes, nesse caminho duro do futuro  e, cada passo que deres dá-o em liberdade......”  então “Sempre alerta para servir” procurei conselho com S.João Bosco: “Educação é coisa de coração” e “o melhor que temos a fazer é fazer o bem, andar contentes e deixar cantar os pássaros”.

    O resto do percurso fi-lo ciente de que nada iria ser fácil, ia cometer muito erro, não era a pessoa mais capacitada para a tarefa, faltava-me experiência, o tempo era pouco e não sei mais quantas coisas que, não tentei esquecer mas aproveitar para, com todas, tomar consciência desta nova caminhada.

    O muito tempo, de Setembro, está já em contagem decrescente. Em paralelo com as aulas (que angústia comparar o que pensamos fazer com a realidade do que fazemos!.....) confirmo bilhetes e viagem de regresso, faço breve apontamento do que ainda quero visitar e já se trocam endereços de mail a par de novas estratégias para melhor rentabilizar o pouco tempo, até Dezembro, de que dispomos. É hora de avaliar trabalho, fazer um balanço e propor novos Projectos dado que a mim , como a Wody Allen “Interessa-me o futuro pois é lá que vou passar o resto da minha vida.” com plena consciência de que ela  só tem um V … o resto é ida ...

    Assim, em tempo de ida, é a Fernando Pessoa que vou procurar: “ O valor das coisas” que “não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis” que eu tive o privilégio de encontrar aqui, nas gentes e na comunidade que me recebeu e onde me senti um pouco mãe e avó  por isso também em casa.

    A todos os voluntários mas especialmente aos que comigo viveram este tempo de formação e preparação desejo que bem-hajam pelo apoio, partilhas e orações ao mesmo tempo que peço a Deus os acompanhe e ajude em todas as novas e velhas Missões em que estão empenhados.

    À  Fundação D. Bosco e à FEC meu bem-hajam junto com minha total disponibilidade para colaborar convosco sempre que meu tempo e partilha vos possam ser de alguma utilidade.

  • Ana Freitas - Angola 2010

    by Vanessa Santos | out 31, 2014

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    Uma vida emprestada por quatro meses

    «A experiência de voluntariado em Cacuaco foi um caminho… uma vida emprestada por quatro meses. Ou será esta a verdadeira forma de viver?

    Dar… era o que tinha em mente quando embarquei nesta viagem. Dar o que fosse preciso, dar de mim o pouco que tinha para dar. Recebi tão mais do que dei.

    O sonho de uma vida transformou-se na própria vida. Uma explosão de cores, sabores e aromas. Aquela luz que não se explica, sente-se. Aquele mar que não se descreve, entranha-se, numa beleza infinita. Aquela chuva que conforta o espírito. Aquela terra que nos curva perante a sua magnificência. O calor que nos aquece o coração. Um turbilhão de emoções onde as certezas absolutas e dogmáticas se tornam ambíguas, turvas.

    Os conceitos questionam-se, perseguem-nos as perguntas e irremediavelmente reflecte-se sobre o sentido das coisas. Deus e o mundo, como compreender e ultrapassar a corrupção, a vida, a enfermidade e a morte, o que é a verdadeira riqueza e pobreza, que importância têm as pessoas na nossa vida, quem se ama, como se ama, o que é preciso para se ser feliz? O agora é já! O presente acontece no momento e o amanhã é uma mera possibilidade. A morte não tem idade em especial quando se extingue a vida de tantas crianças e jovens, quando todas as semanas se perdem vidas por causas para as quais a medicina já possui resposta, só que não aqui, pelo menos não para todos. Talvez daí o facto de procriar ser tão importante, mesmo quando a criança vem do ventre de uma adolescente, independentemente das consequências que isso terá para a sua vida.

    Nesta coisa de se ser feliz são exímios em isolar pequenos intervalos de tempo. Momentos em que umas colunas de som, uma música colocada ao máximo, dança e umas “cucas”, mesmo no meio da rua, fazem a maior festa. Maior que o fim de ano em Time Square ou que o carnaval do Rio de Janeiro, pelo menos para quem ali está. Estes momentos contrastam com a intensidade com que se vivem os óbitos, a naturalidade com que se vive com a malária, a dor com que se vive a morte sempre tão presente, com que se procuram causas que quando não são encontradas pela via da medicina se substituem pelo sobrenatural.

    Abracei a minha pequenez. A cada gesto, a cada sopro sublime que testemunhei. Vi nas Irmãs a imagem do amor verdadeiro, por Deus, pelo próximo, por todos e cada um dos seus meninos que entendem e acarinham individualmente. Deles conhecem as fraquezas mas também, e sobretudo, as potencialidades. Respeitam cada um na sua diferença tratando-os como iguais. Dão-lhes a mão no caminho e sustentam-nos em seus braços nos momentos difíceis, como verdadeiras educadoras de Dom Bosco, seguindo Madre Mazzarello.

    O trabalho é um instrumento, não um fim. O dia intercala-se entre o que se planeou e o que é necessário. Os planos não são mais que esboços, a realidade acontece no presente e é a isso que se tem de responder.

    Será que estar pode ser considerado um trabalho? Estar com as crianças, estar para as crianças, estar disponível para elas e para as Irmãs, simplesmente estar… Estar foi o que mais fiz ou que tentei fazer, até que me tornei o estar. Ser verdadeira e transparente, disponível mas capaz de honestamente receber e fazer a crítica porque toda esta gente me merece o maior respeito.

    O pó da estrada mistura-se no ar com o odor a peixe e bolinhos vindos dos postos de venda. O bater do funge. O alvoroço da manhã na praia dos pescadores. Os rostos escondem-se por detrás dos postiços entrançados com o colorido das bolinhas. O brilho exuberante da pele negra ao sol. O gingar no andar. A alegria no correr. O olhar profundo e o sorriso cativante, irresistíveis. Ao fundo ouvem-se as crianças chamar: “chinesa, irmã, amiga…”

    São incontáveis os olhares, os abraços, os sorrisos trocados com os alunos e as alunas. A cada dia se abria um mundo novo. A paixão que têm pela vida, até a forma garrida como dizem “vou-te bater”, os torna únicos. Mais velhos e mais novos, são todos verdadeiros tesouros e é pena que não o saibam. Por vezes sentem-se capazes de tão pouco quando na realidade já fizeram tanto. Pequenos Homens que cresceram tão depressa para algumas coisas mas a quem faltam tantas outras. É como se a necessidade de assumirem responsabilidades que vêm cedo demais no tempo os tivesse estagnado, os tivesse ligado a essa realidade como se de um cordão umbilical se tratasse. Um cordão para o qual não sentem possuir tesoura que os possa libertar ou capacidade de o fazer mesmo que a possuíssem.

    Os alunos mais velhos têm uma outra visão do mundo. Foi uma conquista a primeira discussão, um sinal de respeito deles por eles próprios e por mim. A satisfação de verificar que não aceitavam cabisbaixos mas que questionavam o que lhes dizia. Argumentavam em seu favor sendo no entanto capazes de respeitar o meu ponto de vista, apresentando uma consciência crítica que robustamente se vai formando.

    Das raparigas é mais difícil conquistar a confiança. Porém, à medida que se avança nesse sentido, descobre-se um aspecto maternal da sua personalidade em conjunto com uma convicção e força capazes de levar consigo o mundo. São as futuras mães africanas. As colunas que discretamente, quase invisivelmente, sustentam esta sociedade carregando os filhos às costas com seus panos enquanto levam à cabeça banheiras que chegam a conter 50 litros de água.

    Ambos alimentam sonhos que se constroem ao sabor das estrelas da música, do cinema e da televisão que seguem. Das promessas que vão sendo trazidas pelo ouro negro e pelo investimento estrangeiro. Começam a questionar a política e o sentido e o valor da liberdade e da democracia.

    Foram as pequenas conquistas que construíram o meu quotidiano. Coisas simples desde conseguir que as crianças da classe infantil percebessem que não podiam todas vir ao meu encontro em simultâneo, o crescente entendimento entre quem fala português mas não o mesmo português e as sessões de esclarecimento com os mais crescidos. De tudo isto foi feito o meu dia-a-dia.

    Seria precipitado dizer o que levo na bagagem. À parte do colorido dos panos, são tantas e indescritíveis as peças deste grande quebra-cabeças que todavia não construi. A distância e o tempo hão-de dar-me as respostas. Por agora fica a vontade de regressar e a certeza de que tudo isto foi um privilégio. O meu muito obrigado a todos os que tornaram possível a realização deste meu sonho. A minha mais profunda gratidão para com todos os que me permitiram que fizesse parte das suas vidas. Hei-de vos levar comigo porque agora fazem parte de mim, por que se impregnaram naquilo que hoje sou».

  • Ana Freitas - Angola 2011

    by Vanessa Santos | out 31, 2014

    Estar aqui

    Estar aqui é sentir… é amar e sentir-se amada de uma outra forma… é o saber a sorte que se tem em estar viva, a importância daqueles que deixamos para poder aqui estar, a importância daqueles por quem deixamos tudo.

    Aqui não existe trabalho: existe vida. Será melhor dizer que as pessoas que aqui encontrei são todos os dias a minha vida e que enquanto aqui estiver a minha vida é delas. Talvez possa mesmo afirmar que parte de mim será para sempre delas. Elas que me fazem sentir mais viva, que me fazem encontrar um outro sentido. Elas com quem me descubro! Aqui, na profundeza dos olhos negros, encontrei a beleza do olhar. Como será possível que olhos tão iguais tenham olhares tão diferentes e tão belos? Talvez seja pela beleza da alma que tentam esconder quando começam a crescer. O medo de amar, de confiar; o medo da traição, do engano. O medo que os faz viver o hoje como se não houvesse amanhã porque aqui, realmente, muitas vezes não há. Encontrei a sinceridade do sorriso, a transparência do coração. Um sorriso inexplicavelmente inebriante, arrebatador, que em tantas vezes se funde com expressões de desilusão das lutas diárias. Um sorriso que encobre sonhos por cumprir com lábios de esperança. Descobri o sol no brilho da pele negra, a cadência na sua gingada, a lua na sua música, o desconcerto concertado na sua dança, o calor na sua mão, o aconchego no seu abraço, a excelência em cada um e em cada qual. Entristece-me o quanto, muitos com quem estou diariamente, deixaram de acreditar e gostar de si à medida que foram crescendo. Magoa-me que crianças de quatro anos digam uma às outras: “vou-te matar!” Faz-me pensar o facto de que enquanto crianças e adultos continuam a morrer, por motivos perfeitamente evitáveis, grandes senhores continuam a viver ignorando as dificuldades por que passa a grande maioria da população. Irrita-me que os jovens acreditem que a corrupção é parte instituída da sua cultura e que em Angola é mesmo assim, como costumam dizer por estes lados. É então que me envolvo em conversas com as mamãs e papás, que embora possam até parecer triviais, mas que se revelam autênticos tesouros. Valiosas mas não tanto como as pessoas com quem as partilho. É então que desapareço por entre os braços dos pequenitos que encontro na rua. Perco-me nas suas vozes a chamarem por mim, encontro-me no colorido das suas tranças, na algazarra das suas gargalhadas, nas suas expressões e brincadeiras. É então que me revejo nas conversas com os alunos e me apaixono pela sua garra, carácter, carisma e força. É então que sei porque estou aqui.

  • Ana Freitas - Angola 2012

    by Vanessa Santos | out 31, 2014
    "... para mim, missão não foi trabalho mas sim vida."

    Este último ano e meio passou sem passar. Não o senti e sem aviso prévio, sem que eu o sequer quisesse, chegou ao fim.

    Chegou ao fim o tempo com os meus pequenos grandes amores, em cujos olhares me perco e encontro. No fundo, foram eles a razão de tudo. Neles encontrei um novo eu. Eles, que são capazes de muito mais mas que parecem ter medo de sonhar. Eles, que espelham as realidades vividas por si mesmos. Eles, que são monumentos vivos à perfeição humana na diferença de cada um, nas imperfeições que nos caraterizam. Lançamos sementes nas vidas uns dos outros… irão germinar? Quem sabe, até florir? Com toda a fé que em mim carrego, desejo que sim!

    Chegou ao fim esta vida em família com as irmãs, Filhas de Maria Auxiliadora, que me ensinaram tanto em troca de tão pouco. Receberam-me em sua casa, na sua vida, sob a proteção das suas asas, como um passarinho perdido num ninho novo. Ensinaram-me e acarinharam-me, deram-me uma nova perspetiva da vida em Igreja e na comunidade cristã. Renovaram a minha fé e, só com elas a meu lado, foi possível cumprir este sonho. Não esquecendo também os Salesianos, responsáveis pela minha chegada a Angola, também eles fazem um trabalho formidável rumo ao desenvolvimento humano e melhoria de condições de vida de tantas crianças e jovens angolanos.

    Chegou ao fim o convívio e partilha com as voluntárias, com quem tive a sorte de dar vida a gargalhadas, lágrimas, suor e sonhos. Aprendi tanto e juntas alcançamos coisa que nunca poderia atingir só. A cooperação, a interajuda, a valorização da diferença como potencialidade e não defeito são coisas que levo para a vida. Com cada uma aprendi, com cada uma me superei, juntas continuamos a caminhada, mesmo que na distância a que a geografia obriga.

    Chegou ao fim esta vivência na escola, na catequese, na paróquia, que me fez crescer, enriquecer a cada encontro de olhares, de sorrisos, por vezes, de opiniões distintas, mas mais que tudo, encontro de corações. Uma partilha diária, consolidada no respeito e admiração que possuo por cada um dos membros de toda a comunidade escolar e pastoral. O vosso esforço e dedicação são para mim fonte de inspiração.

    Enfim, chegou ao fim e desta vez o fim tem um outro peso. Desde 2010 que embarquei neste sonho que é a missão. A preparação para a missão começou muito antes, na minha infância. Foram as palavras da minha mãe, a forma como ela falava deste sonho que também era seu mas que, por razões várias, não pode cumprir. Esse foi o fermento desse desejo que cresceu à medida que também eu crescia. Era a única certeza que sempre me acompanhou desde que eu me lembro de ser eu: querer fazer missão em África. Agora chegou o fim de um ciclo, a hora de voar para outras paragens. É o momento de partir, começar de novo.

    Tive a graça de fazer um pouco de tudo, consoante o que ia sendo necessário. Isto inclui coisas que nunca imaginaria fazer. Agradeço, desde já, a confiança e essa oportunidade de crescimento pessoal e profissional. Neste último ano tive a oportunidade de dar aulas de forma assídua. Não me considero professora, tenho demasiado respeito por essa profissão para o fazer, limitei-me a ser facilitadora de conhecimentos, dando os instrumentos necessários para que os meninos e meninas pudessem crescer e melhorar, também intelectualmente.

    Durante este tempo, entre períodos em que estive em África e outros em que estive em preparação ou simplesmente à espera de documentos, só respirei Angola. A minha vida volveu em torno da missão e ela tornou-se o foco de todo o meu ser. Sacrificada foi a minha família e amigos mas que, mesmo quando não compreenderam, à sua maneira, sempre me apoiaram. Em todos os momentos estiveram presentes comigo. Cada gesto, cada abraço por mim dados, tinham-nos a eles. Quando amei foram também eles que amaram. Limitei-me somente a transmitir o que deles recebi.

    Sensação de dever cumprido… Já ouvi falar nisso. Essa sensação que se experimenta quando se chega ao fim de um trabalho, uma satisfação completa. É isso, não é? Então se é isso, não o sinto talvez porque, para mim, missão não foi trabalho mas sim vida. Fiz tudo o que pude, da melhor maneira que consegui mas olho à volta e vejo tanto ainda para fazer. Penso nos “meus” meninos e meninas, nas ideias e projetos que me surgem, na vontade de criar parcerias, atividades, nos sonhos, desejos e ambições partilhadas… fica a certeza, no entanto, de que chegou a hora de dar lugar a outros que possam fazer mais e melhor. Sei que não sou necessária, sempre fui e sou apenas um complemento, uma adição, e isso faz-me seguir em frente com serenidade.