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  • Inês Pinheiro - Missão Cretcheu

    by Vanessa Santos | Dez 28, 2015

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    “Estou de regresso a casa”. Foi isso que senti quando, passado um ano, voltei a pisar o chão quente da Boa Vista. A sensação de sair do avião e ser abraçada por aquele calor africano é inexplicável, não há dúvidas de que se está no sítio certo.

    Não dá para explicar o que senti quando, depois de percorrer um caminho tão familiar, entrei, pela primeira vez, no nosso Bairro. Lá estava ele, exactamente da mesma maneira que o tinha deixado, parecia que estava à minha espera. À medida que me fui aproximando do Centro Educativo Nossa Sra. da Boa Esperança, a nossa casa, comecei a ouvir o meu nome. Crianças, das quais algumas nem me lembrava da cara, chamavam por mim como se eu nunca tivesse saído dali, como se me tivessem continuado a chamar todos os dias. Aquela sensação de quando a alegria é tão grande que não cabe no peito e nos apetece chorar. Foi isso que senti à medida que fui reencontrando as pessoas, que fui vendo as caras conhecidas, que fui recebendo os abraços. Não há como explicar o coração a querer sair pela boca, a alegria imensurável do reencontro. Um ano depois estava em casa novamente!

    Dois dias depois de termos chegado começaram as actividades. Instalou-se a rotina de uma forma tão natural naquele centro paroquial que agora era a nossa casa. Era onde a nossa família vivia, onde recebíamos os nossos amigos, onde fazíamos jantares e festas, onde brincávamos com as nossas crianças, onde conversávamos, comíamos, dormíamos, chorávamos, ríamos, rezávamos, cantávamos. Criámos, de facto, uma família, em que cada um tomava conta do outro. Desentendemo-nos, perdemos algumas vezes a paciência, pelo calor, pelo cansaço, mas voltámos a dar as mãos, a ser grupo, a ser uma família barulhenta de doze à mesa, no meio de gargalhadas e risos. E a rotina mantinha-se. O pão quentinho era comprado de manhã para o pequeno-almoço, a mesa era posta, as camas eram feitas, as tarefas eram divididas.

    As manhãs eram passadas no Bairro da Boa Esperança, onde as cores enchiam o Campo de Férias: era o azul, o vermelho, o laranja, o verde e o roxo. Era a presença de D. Bosco ao peito. Fomos com ele, com os seus ensinamentos, com a protecção de Maria e demos o exemplo de Deus àquelas crianças e jovens, ajudando-os a dar vida aos seus sonhos.

    À tarde, dividíamo-nos pela Vila de Sal Rei, pelo Rabil e voltávamos também ao Bairro. Depois estávamos em grupo, com os nossos amigos, íamos até à praia do Estoril, estávamos simplesmente como quem está longe do resto do mundo, desprendidos do telemóvel, da internet, do que nos ligava a Portugal, porque só queríamos estar ali, na terra da morabeza, do funaná, do crioulo, do “nha cretcheu” e do “ami ku bô”.

    A seguir íamos à missa, ouvíamos a palavra de Deus e enchíamo-nos de forças para o dia seguinte. A noite chegava com os banhos, água fria que nos sabia tão bem depois do calor 24 sob 24 horas. O jantar que a Sandra nos preparava, depois de perguntar a cada um “qual é o vosso prato preferido?”, acomodava-nos para uma reunião, para uma actividade de grupo ou simplesmente para um convívio nocturno bem passado entre amigos.

    Rápido (demasiado rápido!) passaram-se os dias, a rotina dos 22 dias. Uma rotina que não era rotina, porque o calor não nos abalava, as noites mal dormidas dos mosquitos não nos cansavam, as diarreias, a febre e as fraquezas não nos mandavam abaixo, porque estávamos ali todos a receber tanto, todos os dias. A força de dar e receber era tanta que tudo o que vivíamos durante o dia aconchegava-nos à noite, porque cada dia era uma descoberta nova, uma memória para guardar dentro de nós.

    No dia 1 de Agosto, demos as mãos a Deus e partimos para a Boa Vista. Chegámos, fomos recebidos de braços abertos e vimo-l’O em todos os rostos e em todos os gestos. Com Ele, entregámo-nos, com confiança, com fé. Partilhámos o Seu amor e o que recebemos de volta foi maior do que aquilo para o qual Ele nos tinha preparado. Agora queremos voltar, queremos dar mais, viver mais, servi-l’O melhor, servindo as pessoas daquela ilha, da nossa ilha.

    Quando fomos, levámos malas cheias de materiais, de actividades preparadas, de calendários programados. Levámos tudo para deixar lá e, no entanto, regressámos e afinal o que deixámos foi algo que nunca pensámos: o nosso coração. E connosco trouxemos a saudade, o olhar brilhante de quem não consegue explicar os 22 dias que se viveram em grupo, a vontade de voltar. Trouxemos, dentro das malas e do coração, os beijinhos, os abraços, os desenhos, as músicas, as palavras, os gestos, o amor das nossas crianças, dos nossos amigos e da comunidade daquela pequena ilha que nos abriu as portas desde o primeiro dia. E essa é uma forma simples de explicar a Boa Vista, a terra das portas abertas, do sorriso fácil, da alegria genuína, da felicidade pura, da gente boa, do amor imenso a transbordar de rostos negros e de braços também sempre abertos.

    Agora, depois do regresso a Portugal, como explicar as saudades que parecem não caber dentro do peito? Como explicar o coração cheio, o sorriso sereno ou a alegria genuína de se viver naquela ilha, com aquela gente, no meio daquele bairro e daquela vila, a receber o sol, o calor e o cheiro daquela terra? Quero voltar. Voltar à simplicidade daqueles dias, andar sempre vestida com calções, t-shirt e chinelos, receber sorrisos e amor em troca de tão pouco. Até ao calor que me parecia tão insuportável, ao cansaço que sentia pelas noites mal dormidas com o calor e os mosquitos, até a isso quero voltar. Porque, mesmo cansada, quando me deitava, no meu colchão, no meio do chão, no salão, junto à Sara e à Di, agradecia a Deus por estar ali a viver aqueles momentos e a sentir toda aquela felicidade.

    As pessoas perguntam “e a pobreza? As casas? As condições eram horríveis, não eram? O bairro era feio, sujo, pobre?”. Mas o que não conseguem perceber é que quando nos sentimos em casa tudo isso deixa de existir. Para mim, era o nosso bairro, o sítio onde era recebida todos os dias de braços abertos pelas centenas de crianças que nos esperavam. Chegar todas as manhãs à escola da irmã Paula, na expectativa de quem pudesse lá estar para nos receber a correr a abraçar, com sorrisos gigantes, é algo que não dá para explicar. Sentir aquelas calorosas boas-vindas todas as manhãs fazia-me desejar não estar em mais nenhum outro lugar do mundo que não ali, naquele bairro, naquela vila, onde era tão imensamente feliz todos os dias.

    Não mudei o mundo, mas entreguei-me, amei e marquei pessoas. E as pessoas marcaram-me. Amigos, jovens, crianças. Crianças como a Palavra, o Bebé e o Eddy. Um ano depois, voltar a reencontrar os três (tão mais crescidos!) foi, sem dúvida, uma das maiores alegrias desta missão. A Palavra era a alegria pura, as gargalhadas das doidices, o calor dos abraços, o amor dos beijos. Ela conseguia encher tudo de alegria com aquele riso e aquela cara que nos desarmava a todos. Não dá para explicar por Palavras quem é a Palavra, ela era a alma do Campo, era a nossa estrela. “Palavra, dá beijinho à esquimó”. O Bebé cresceu tanto e este ano já não respondia por Bebé, era o Edimilson, porque ele já é crescido! Aquele cabelo encaracolado, cara de capa de revista, sorriso maroto, pulguinha a correr por todo o lado, a esconder-se debaixo das mesas e a fugir, mas, ao mesmo tempo, os beijinhos e os abraços, quando chamava o meu nome e me fazia derreter com a sua voz de criança pequena, “ami gosta di bô”. O Eddy era a alegria de rapaz misturada com a delicadeza da criança ternurenta que ele sempre foi. O “não fui eu”, outra vez, a juntar a tantas outras brincadeiras, mas sempre depois de um abraço forte sempre que me via. O Eddy foi o melhor presente deste ano e sinto um orgulho enorme por ser madrinha de um miúdo tão especial como ele, “nha afilhado”.

    Mas também havia as outras crianças, com rostos e momentos que não esqueço. O Luís, a Andreia, o Carlos, o Fernando, o Leandro, o Paulo, o Ari, a Rihanna, a Maira, o Joel, a Tamarta, a Rosy, o André e o Thierry dos Moranguinhos, a Esmeralda, a Helena, a Eunice, a Nélida, a Zuleica, o Isaías, o Teddy, o Gilberto, o Julinho, o Besna, a Iara, a Leo e o Denilson dos Tubarões Azuis, a Nadine, o Ede, a Liliane, o Silvano, a Larissa e a Taíssa do Bairro, e as nossas pequeninas, a Clediane, a Princela, a Nilsa e a Bruna. Saudades de todas elas.

    Saudades também das amizades que lá fiz, dos laços que criei e que sei que são para a vida. Uma das maiores riquezas deste ano foi, sem dúvida, as relações que criámos com os jovens, para além da rotina do Campo e das actividades com as crianças. A riqueza da partilha de culturas, da troca de risos e brincadeiras, da mão estendida em qualquer momento de aflição, da animação das festas, dos jantares, dos passeios e dos jogos. A riqueza de amizades que se guardam cá dentro e que se estimam para sempre: a do Jorge, do Lando, do Junior, do Arlindo, do Francisco, da Neida, da Rosy, da Jussara, do Rau, do Tchota, do Landim, da Jany, da Cecília, do Igor, do Pe. Zé Mário, da irmã Paula e da irmã Victória. E houve ainda a grande riqueza de fazermos amizades lá que trouxemos para cá: a da Mafalda e a da Rosarinho. E que sorte tivemos em tê-las connosco lá e agora tê-las cá tão perto!

    Agora que voltámos, rezamos a Deus para que proteja todos os que lá deixámos e que tanto queremos reencontrar. Um sentimento que não é partilhado senão com aqueles que viveram esta experiência comigo. É difícil voltar para casa e não os ver a todos, tomar o pequeno-almoço sozinha, sentar-me a uma mesa silenciosa. Tudo é tão pequeno, quando penso que há um mês éramos doze e fazíamos tanto barulho e havia tanta vida numa só casa. Saudades deles e de tudo o que vivemos juntos. Obrigada por todos os momentos que partilhámos e pelos laços que criámos. Obrigada à família que foi comigo: a Sara, a Di, o Paulo, a Marisa, a Mónica, a Mariana, a Mia, o Baltasar, a Margarida, a “mãe” Sandra e o nosso irmão mais novo João.

    Até para o ano, nha terra, nha cretcheu!

  • Mónica Costa - Moçambique

    by Vanessa Santos | Out 07, 2015

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    Foi num abrir e fechar de olhos que passei do plano das ideias para o das ações e dei por mim em Moçambique, mais precisamente em Inharrime, uma pequena, mas linda, acolhedora, calorosa e encantadora vila, localizada na província de Inhambane. Aqui, pude dar vida a um dos meus inúmeros e diversos sonhos, aquele que, nos últimos tempos, imperava cumprir-se, o de ir para África, a África Negra, integrada numa missão de voluntariado.

    Foi no âmbito do Programa D. Bosco - Projeto Vida que embarquei numa longa viagem que teve início no norte de Portugal e terminou no sul de Moçambique. Fui acolhida pela comunidade salesiana, nomeadamente na Escola Profissional Domingos Sávio (EPDS), onde encontrei pessoas formidáveis, como foi o caso do Sr. Padre Adolfo, o diretor da escola, para quem envio desde já um agradecimento muito especial por toda a sua hospitalidade, cuidado, simpatia e boa disposição, que sempre demonstrou.

    Nesta escola, desta comunidade salesiana, a minha missão centrou-se essencialmente no apoio ao processo de ensino-aprendizagem, nas aulas de português, uma vez que sou licenciada, precisamente, em ensino de português e, portanto, pude ser uma mais-valia nesta área. Assim, tive a oportunidade de assistir às aulas dos três professores de português, a professora Cardina, o professor Eliote e o professor Gove, os quais nunca esquecerei, não só pelo carinho e amizade que me ofereceram desde o princípio como também pela boa receção, pela grande abertura e pela enorme vontade que demonstraram em dar e receber, enfim, em partilhar novos conhecimentos e novas experiências. Depois de ter assistido a algumas aulas e de perceber algumas das dificuldades e das lacunas sentidas, tanto ao nível dos professores como ao nível dos alunos, voluntariei-me para ministrar algumas aulas e, ainda, para auxiliar no esclarecimento de dúvidas, no apoio ao desenvolvimento de trabalhos, etc., o que teve lugar quer na biblioteca da escola, quer nas salas de estudo. Tais vivências foram simplesmente fantásticas e inesquecíveis, ou não fossem estes alunos e professores uma mão cheia de boa disposição, simpatia, criatividade e entusiasmo, para não falar no brilho que trazem nos olhos e na graciosidade constante dos sorrisos.

    Estive cerca de um mês nesta escola, imbuída pelas tarefas descritas, rodeada de boa gente, e pude vivenciar momentos felizes, outros menos felizes, pude superar expectativas e deixar outras de parte, tive momentos plenos, cheios de tudo, e outros vazios, cheios de nada. De facto, esta experiência, que me marcou de um modo indelével, encheu-me o coração de momentos extraordinariamente felizes: o convívio e a troca de experiências com os alunos, professores e família salesiana; as peripécias protagonizadas por alguns, cujos nomes não esqueço, como o Abelardo, a Mirna, o Luís, a Zulfa, a Hortência, a Florença, a Quitéria e muitos outros; as histórias do Sr. Padre Adolfo, sempre muito engraçadas; os delírios dos cães Brown e Belzebu e da cadela Lady Gaga; as conversas com o porteiro, o Sr. Cândido; o contacto com outros voluntários, de Espanha, do Brasil e dos Estados Unidos da América; as caminhadas pela vila de Inharrime, onde havia sempre alguém a meter conversa com as voluntárias; entre muitas outras coisas positivas e enriquecedoras. Contudo, através da mesma experiência, fui invadida por questões e reflexões constrangedoras, como o motivo de tanta pobreza, de tanta crianças e adolescentes crescerem afastados das suas famílias, a dúvida quanto ao serem ou não felizes, entre outras inquietações. Bem, não obstante todas as dificuldades que possam ter de enfrentar diariamente, julgo que são felizes e muito. Não têm o que nós temos ou o que nós valorizamos mas têm e valorizam outras formas de estar e de viver e não lhes falta alegria, animação, entusiasmo, amizade e companheirismo. Aqui, abundam sonhos para o futuro. Trata-se de boa gente com fé e esperança.

    Quando decidi oferecer-me para esta missão, nunca pensei em transformar nada nem ninguém, fui com o intuito de proporcionar momentos especiais, iluminar olhares, arrancar sorrisos e gargalhadas, semear motivações, tentar ensinar algo de novo e apoiar no que fosse necessário. E, efetivamente, houve momentos memoráveis, em que consegui dar vida a tais intentos.

    Fiquei deslumbrada com Moçambique, um país imenso e imensamente lindo. Para além da vila de Inharrime, tive a feliz oportunidade de conhecer um pouco da cidade de Inhambane, um pouco mais de Tofo, perto de Inhambane, onde contemplei e desfrutei de uma praia, areal e mar maravilhosos, ao jeito das maravilhas do Índico, e, ainda, conheci a capital, Maputo, tanto na azáfama das variadas ruas e da baixa da cidade, como numa certa acalmia existente na zona da Costa do Sol e, principalmente, na Ilha de Inhaca, mais conhecida como a Ilha dos Portugueses.

    Conversei muito com a gente de Moçambique; circulei nos transportes à disposição, no manchimbombo (autocarro), no chapa (carrinha) e na txopela (espécie de tuk tuk utilizado como táxi), eram todos tanto atribulados como divertidos; vesti capulanas (veste típica da mulher moçambicana); comi xima e macouve (pratos típicos); tentei dançar ao ritmo moçambicano, embora tenha ficado muito aquém; e, assim, fui deixando entranhar a cultura e tradição moçambicanas que, de início, tinha estranhado. 

  • Janete Massuça - Formação de professores 2015

    by Vanessa Santos | Out 07, 2015

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    Ao chegar ao aeroporto, em Maputo, tinha à minha espera o Padre Jorge Bento e o Celso Seabra. Ambos com um sorriso no rosto e uma boa disposição que lhes é inerente.

    De seguida fomos para a Escola profissional de Moamba, local onde ainda não tinha estado em anos anteriores.

    Fui muito bem recebida por toda a comunidade que me integrou na comunidade Salesiana assim como na vida local envolvente.

    Nesta Escola Salesiana dei formação a 26 professores da escola profissional. Na primeira parte foi elaborado um power point onde foram expostos vários métodos de trabalho e estratégias em sala de aula. Numa segunda parte realizámos um trabalho prático onde os professores se reuniram em grupos de 4 elementos e depois dariam uma aula com o tema a seu gosto, utilizando os materiais disponíveis.

    Os professores no final tiveram um pequeno lanche e receberam uma agenda dos Salesianos e um certificado de participação.

    Foi uma ação com sucesso garantido.

    Na Obra Salesiana da Matola dei igualmente formação a professores, dentro dos mesmos moldes da anterior.

    Fui muito bem recebida nesta casa, onde permaneci dois dias.

    Guardarei comigo o carinho deste professores, que me receberam de braços abertos, mesmo sabendo que o que tinha para dar era muito pouco e por muito pouco tempo. Mais do que tudo, levo comigo na memória as pessoas extraordinárias que conheci, que dedicam a sua vida à caridade e se entregam ao outro de forma apaixonada. As irmãs que conheci em Moamba e com quem partilhei experiências anteriores.

    Realmente a frase “Primeiro estranha-se, depois entranha-se...”  é na verdade algo maravilhoso e inesquecível, que sempre que tiver disponibilidade realizarei de coração aberto.

  • Sara Nascimento - Missão Cretcheu

    by Vanessa Santos | Out 07, 2015
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    Passámos 22 dias na Boavista, em Cabo Verde. A cada dia acontecia algo novo. Aprendemos a viver em grupo, a respeitar as diferenças, a trabalhar e a dar o bocadinho que cada um tem de dar para formar o todo. Nesses dias vimos de tudo, e travámos várias batalhas contra a má disposição, dores de cabeça e outras maleitas que não nos queriam largar. Sofremos perdas, desentendemo-nos, fizemos as pazes. Saímos da casa que nos acolheu e entregámo-nos: aos outros, à Boavista e a Deus. Nas mãos D'Ele, soltámos amarras e criámos laços. Laços que agora sei que nunca serão desfeitos. A Boavista é uma terra de gente boa, que nos acolheu feliz, dando-nos tudo o que tinha. As crianças corriam para nós todos os dias de manhã a pedir o amor que levámos nas bagagens e que era só para eles. Fizemos jogos, ensinámos canções, falámos-lhes de Deus e de Dom Bosco. Sorriamos e isso chegava, a par com o sorriso deles. Levámos para Cabo Verde excesso de peso na bagagem, cheia de materiais que queríamos dar e deixar na escola da irmã Paula, e no regresso a mala vazia não chegava para o peso das saudades e de querer ali ficar muito (muito!) mais tempo. Não mudámos o mundo, não salvámos ninguém... mas fomos! Amámos e dêmo-nos ao outro. Enchemos de sorrisos, gargalhadas e música os dias das crianças do Bairro da Boa Esperança, do Rabil e da vila de Sal Rei. E trouxemos memórias, saudades, e uma vontade imensa de voltar... Foi um sonho realizado, sim! Um sonho em forma de semente que agora deixou em mim a vontade de partir mais, para mais longe, e fazer mais... cada vez mais.

  • Mafalda Mourisco - Missão Dam Bô

    by Vanessa Santos | Out 07, 2015

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    Já se passaram duas semanas desde que regressei da missão de voluntariado da qual fiz parte e sinto que há ainda muito por apreender, por assimilar. A multiplicidade de emoções que me perpassaram durante as 3 semanas que passei na ilha de São Vicente, Cabo Verde, são dificilmente traduzíveis por palavras. Ainda assim, darei o meu melhor.

    Jamais me esquecerei dos olhares tímidos e algo receosos que, em apenas horas, se tornaram em sorrisos sinceros, dos mais belos que testemunhei. Apenas tínhamos feito a Oração dos Bons Dias, e ensinado a música do “Pai Nosso” e a pequenada já estava em êxtase, fazendo os gestos no meio da rua, cantando a plenos pulmões.

    Também dificilmente esquecerei a súplica da Dérica, uma adorável menina de 4 anos que conheci na comunidade de São Pedro. Era o nosso primeiro dia, e eis senão que ela abraça as minhas duas pernas e me diz “Dá-me água”. Dei-lhe a água que trazia na minha garrafa, certa de que apenas mataria a sede de uma criança no meio de tantas outras, e em apenas num dos momentos da sua vida em que a sede lhe assolaria.

    Gostava de terminar com um pensamento que me invadiu no meu último dia como missionária “Vim para cá de coração cheio, pronta a dar e, no fim de contas, recebi mais do que alguma vez imaginei”.

  • Carina Gonçalves - Escola de Verão 2015

    by Vanessa Santos | Out 07, 2015

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    Os dias vão passando e as rotinas vão tentando fazer com que tudo volte a ser o que era antes de partir, mas sinto que grande parte de mim ficou em Cabo Verde. 

    Por muito que se tente explicar aquilo que vivi durante 4 semanas, não é possível descreve-lo, nem por palavras nem mesmo por imagens, tudo acaba por ser muito redutor. Parti sem muitas expectativas sabendo que regressaria diferente, apenas como objectivo de me entregar a missão e de estar disposta a receber o que esta tinha para me oferecer. Chego de coração cheio e com um desejo enorme de querer voltar a partir.

    Viver durante 4 semanas em São Vicente foi sem dúvida a maior experiência da minha vida. A cidade cheia de contrastes é única devido a suas características e as suas gentes maravilhosas.

    Fui recebida de braços e coração abertos pela comunidade Salesiana, pela comunidade de São Vicente e pelo grupo de monitores residentes. O que demonstra a generosidade e a simplicidade com que vivem, sempre prontos  receber e a acolher.

    A minha missão consistiu em fazer parte da Escola de Verão 2015 na escola Salesiana de Artes e Ofícios de São Vicente. Durante 4 semanas o objectivo era ser animador de um grupo de crianças e jovens que chegaram a ser mais de 300. Os dias, que começavam bem cedo, eram passados em atividades com espaço para brincadeiras, jogos, idas à praia e as piscinas, dinâmicas e reflexões. E como não podia deixar de ser, com a partilha da espiritualidade juvenil salesiana e dos ensinamentos de D. Bosco, que estavam presentes todos os dias nos bons-dias e nas eucaristias.

    Mas estes dias em São Vicente, foram muito mais que a Escola de Verão, o Padre Sílvio Faria proporcionou-nos, a mim e a Mariana (a grande companheira de missão) e por forma a celebrarmos o bicentenário de D. Bosco, várias experiências que nos permitiram conhecer realidades e formas de vida bem diferentes em S. Vicente. Fomos a várias comunidades mas carenciadas, estivemos na cadeia e andamos a distribuir comida aos meninos da rua. Foram dias muito intensos, cansativos e alguns deles bastantes difíceis. Acho que nunca tinha trabalhado tanto nem tão intensamente, mas também tenho a certeza que nunca tinha sido tão feliz e agora chegada a altura de fazer o balanço tudo valeu a pena!

    O cansaço é rapidamente compensado por um sorriso rasgado, por um abraço apertado ou pelas palavras genuínas e simples de agradecimento que nos enchem o coração e nos fazem esquecer todas as dificuldades e desejar voltar.

    A sensação que tenho é que passados alguns dias já estava tão adaptada aquela realidade que para mim era como se aquela tivesse sido sempre a minha realidade, é estranho como apenas 4 semanas, intensas e envolventes, conseguiram mudar a minha vida e deixar uma vontade incessante de querer continuar a fazer parte daquela comunidade. Sei que não conseguimos mudar o mundo, mas tenho a certeza que conseguimos mudar o mundo de alguém. E é a vontade de quer dar continuidade a semente que deixamos, que me faz ter a certeza de que não faz sentido não voltar!

    Cabo Verde será sempre a terra que recordarei onde deixei para trás as comodidades a que estava habituada, que passei algumas privações, onde tive um trabalho diário cansativo e pouco descanso, mas onde me senti mais útil, mais necessária, mais reconhecida e mais amada do que em qualquer outro lugar no mundo onde já tenha estado. Não há nada que explique ou que compense o sorriso das crianças quando partilhamos com ele um simples balão, um abraço carinhoso quando lhe dávamos uma bolacha, o desejo de querer que voltássemos para o ano e as lágrimas de cada um quando nos viu partir.

    As saudades são muitas e a felicidade vivida com tão pouco por terras Africanas é inexplicável. Podíamos não ter muito ou aquilo a que estávamos habituadas, mas tínhamos o necessário para aprendermos a partilhar, a olharmos para o outro e a ver apenas o que era importante, a olharmos com atenção e sentido auxiliador para os outros, aprendemos acima de tudo a dar valor a vida e isso já foi muito!

    Agradeço a Fundação Salesianos e ao Programa D. Bosco Projeto Vida pela oportunidade e a comunidade salesiana em São Vicente pelo acolhimento.

    Agradeço a Deus pela força e por me permitir ter partido e regressar de coração cheio, segura de que me permitirá repetir a experiência missionária. E a D. Bosco pelos ensinamentos vividos e partilhados.

    As vivências foram muitas, as recordações indescritíveis e as saudades inexplicáveis. Realmente esta experiência alterou a minha visão geral do mundo e é impossível não me ter mudado. Permitiu-me ver tudo melhor, enxergar o que realmente importa e tornou-me, com toda a certeza, uma pessoa melhor e mais rica.

    Trago e guardarei para sempre estas 4 semanas no meu coração e um desejo enorme de querer voltar!