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  • Joana Massuça

    by Vanessa Santos | jan 28, 2015

    escola de São Carlos tb da missão (6)

    Os alunos da escola de São Carlos - MoatizeA Joana Massuça é uma adolescente de 14 que acompanhou a sua mãe, a prof. Jainete, na ação de voluntariado de 1 mês em Moçambique. Deixou as suas experiências escritas num diário a que chamou “Diário de uma adolescente em voluntariado missionário”. Transcrevemos aqui parte desse escrito, em jeito de testemunho.

    Moatize, 25 de julho de 2012

    Pelas 6:30 da manhã assisti aos bons dias que são dados aos alunos pelos professores e pelo diretor pedagógico.

    Os alunos estão alinhados por turmas, onde respeitam as ordens dadas pelo professor e cantam o hino nacional de Moçambique. São ditas algumas palavras e rezam um Pai Nosso e uma Avé Maria para pedir proteção a Deus e ajudar nos trabalhos do dia. De seguida os alunos dirigem-se em filas por turma para as suas salas de aula. Ao longe tem o aspeto de um carreirinho de formigas.

    Hoje assisti às aulas dadas pelos professores da escola da missão. A minha mãe tinha como função observar as aulas e a minha curiosidade levou-me a ir com ela.

    Reparei que apenas em duas salas existem mesas e cadeiras. As paredes não estão pintadas e a sujidade acumula-se.

    Nas salas de aula não existem janelas nem portas a maior parte dos alunos senta-se no chão. Quando chega alguém às aulas levantam-se e cumprimentam educadamente e em coro os professores. O material escolar dos alunos é velho, gasto e muito sujo, mas a sua vontade de aprender ultrapassa todas as barreiras e ali estão sentados no chão em turmas de 40 a 50 alunos.

    Numa das salas que visitei a professora apresentou uma aluna que para chegar à escola tinha que se levantar muito cedo, passar o rio de canoa (onde pagava 10 meticais), correndo todos os dias o risco de a canoa se virar e ser atacada pelos crocodilos existentes no rio Zambeze. Depois tenta apanhar um chapa (carrinha de transporte público) para chegar à escola. Esta aluna com grandes carências económicas chega às aulas atrasada o que prejudica o seu aproveitamento escolar.

    Ao assistir às aulas verifiquei que alguns alunos trazem de suas casas cadeiras para se sentar. Nesse momento verifiquei o número elevado de injustiças que existem pelo mundo fora. Cheguei à conclusão que os nossos alunos em Portugal levam para a escola nintendos para brincar e estas crianças com os mesmos direitos e deveres transportam para a escola o lugar para se sentarem.

    As cadeiras que os alunos transportam para se sentar na sala de aula

    Inharrime, 3 de Agosto de 2012

    Hoje acordei depois de uma noite bem dormida sem barulho.

    Fui ajudar o irmão Manuel na área da informática.

    O ambiente na casa de Inharrime é excelente, os jardins são imensos, com tudo muito bem cuidado e regado pois nesta casa existe um furo de água, o que ajuda muito na machamba.

    Hoje fomos convidados a participar na festa das FMA (filhas de Maria Auxiliadora), que completam 140 anos de existência no mundo.

    Pelas 18 horas fomos para a casa das irmãs e assistimos à eucaristia presidida pelo senhor Padre Tomás. Na eucaristia estavam os voluntários, irmãs, padres e as meninas que estão internas na casa. Esta casa acolhe raparigas que são abandonadas ou negligenciadas pela família e passam a viver em família na casa das FMA. Aí elas têm comer a tempo e horas, dormida, educação, higiene, etc… São meninas muito carentes de afetos, quando me viram agarraram-se a mim a dizer que tinha um cabelo lindo e já não me deixaram, era só festas e abraços. Estas meninas têm desde os dois anos até aos 16, 17 anos.

    Despois da eucaristia fomos jantar e partir o bolo do aniversário da casa das irmãs. Reparei que as crianças estavam muito felizes, pois era um dia de festa para elas. Ao jantar elas só tiveram direito ao arroz com salada não tinham a carne como nós, isto tocou-me pois raramente comem peixe ou carne, como são muitas a base da alimentação é salada e arroz ou massa.

    Depois do jantar prepararam um teatro e peças musicais para nós. Estive a noite toda rodeada de meninas que se deitavam no meu colo, mexiam na minha pele, meninas que suplicam carinho, atenção e apenas um miminho de outro ser humano, foi tocante….

    Inharrime, 6 de Agosto de 2012

    Hoje deu-se início a mais uma semana de trabalho e em missão sem esperar surge qualquer coisa para fazer.

    Na escola profissional faltaram 2 professores e havia necessidade de substituições prontifiquei-me a dar aula de matemática aos alunos do 2ºano do curso profissional de eletrónica, alunos com 16, 17, 18, 19 e 20 anos, trabalhei com eles durante 2horas, equações de 1º e 2º grau, sistemas e problemas com percentagens. Foi uma sensação única pois com apenas 14 anos consegui dar aulas a alunos mais velhos.

    Dar aulas de Matemática

    Após um mês de trabalho com o qual aprendi muitas coisas cheguei ao meu país.

    A cada segundo que passava dava mais valor a tudo o que tinha: ao comer, à roupa, à higiene, às estradas, aos autocarros, enfim a tudo o que me rodeava.

    Aprendi neste mês a sobreviver com o que tinha e a ajudar os outros que precisam muito, mesmo muito.

    A cada minuto da minha vida agradeço a Deus tudo o que me deu e tem dado até hoje e peço-lhe a continuação da sua proteção.

    Deixo a todos os adolescentes a mensagem de que devemos dar valor a tudo e a todos que nos rodeiam, esta experiencia fez-me crescer e aprender a valorizar cada segundo da minha vida. Não desperdicem o que a vida vos dá em cada momento.

  • Benedita Siqueira

    by Vanessa Santos | out 31, 2014

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    Uma lição de vida

    Bem, por onde começar… Não tenho muito jeito para escrever, e nunca sei o que dizer, por esse motivo vou contar um bocadinho da minha história!

    No dia 4 de março de manhã parti para uma grande aventura na minha vida, em que tudo era novidade. Apesar dos meus 26 anos (na altura), nunca tinha saído de casa e o máximo de tempo que estive em viagem fora de Portugal foram cerca de 10 dias.
    Agora embarcava para um novo país, novo continente, nova cultura, nova Vida. A ansiedade e o pânico tomavam conta de mim. Como é que vai ser?O que vou fazer? Milhares de dúvidas, mas no meio de tudo uma estranha tranquilidade.

    Nessa mesma noite lá estava eu em Maputo, Moçambique. À minha espera estavam o Pe. Bambo, o Pe. André e a Mana Mafalda (uma voluntária portuguesa que já se encontrava em Maputo à sensivelmente um mês). Quando saímos do aeroporto começou a chover, e antes que eu pudesse sequer ter qualquer pensamento, o Pe. Bambo, muito simpaticamente como sempre, disse-me que a minha missão em Moçambique estava abençoada pois tinha sido recebida pela chuva e isso é sempre uma Bênção, nunca esqueci estas palavras. 

    Como ia ficar por um período relativamente longo (cinco meses), passei uma semana em Maputo a conhecer a obra Salesiana e a comunidade.
    Fui sempre muito bem recebida, com sorrisos genuínos, pessoas humildes sempre prontas a ajudar no que fosse preciso.

    Uma semana se passou e estava agora na hora de subir até Moatize - Tete, local da minha “missão”.
    A viagem durou um dia e meio, qualquer coisa como 1500km. Posso dizer que passa a correr pois as paisagens são lindas, não há palavras para descrever. Tudo neste país se estava a tornar maravilhoso.
    Por fim avistava-se Tete, sinal que pouco faltava para chegar a Moatize, vila na qual ia ficar instalada. Chegamos de noite, por isso não deu para ter perceção do local. No portão esperava-nos o Pe. Francisco Lourenço, ou Pe. Xico como é carinhosamente tratado por toda a comunidade.

    No dia seguinte já deu para dar uma volta e entender um pouco tudo o que se passa ali.
    Então temos a Escola Primária Completa (da 1.ª a 7.ª classe), uma carpintaria, uma rádio (na qual eu fiquei a trabalhar), o escritório de um projeto agro-pecuário, a igreja/ paróquia. Portanto tudo se passa em minha casa.
    Nesse mesmo dia fui até ao mercado local com o Pe. Xico, o que deu para começar a ter uma percepção do que é a vila de Moatize e de como aquelas pessoas que têm tão pouco não se queixam de nada e de como para eles está sempre tudo bem, sempre com um sorriso na cara.

    Tal como disse fui para Moatize principalmente para dar uma ajuda na Rádio Comunitária Dom Bosco, na área da comunicação e marketing, pois é a área da minha formação. A equipe da rádio é composta por voluntários locais, na sua maioria jovens, e a emissão é dividida parte em português e outra parte em nyungwé (língua local daquela zona de Moçambique). O meu trabalho na rádio foi criar uma rotina em relação ao noticiário, pois este não era passado diariamente. 
    Pedi a uma amiga designer para criar um logótipo, fizemos cartões de identificação para todos os colaboradores da rádio, um anúncio e um folheto para angariar alguns fundos, pois a rádio vive de ajudas e doações. Tudo em “parceria” com a mana Inês, voluntária que chegou a Moatize um mês depois de mim.

    As nossas tardes eram passadas com as crianças da escola e da comunidade. Aquele espaço de dia para dia foi ganhando mais e mais crianças, todas com uns sorrisos maravilhosos, passavam as tardes a pintar, jogar à bola, saltar ao elástico, entre outras coisas. 
    Engraçado, das coisas que mais gostavam era de quando falava com a minha família pelo skype, queriam sempre falar e chegavam-me a pedir para ligar de propósito só para falarem com a minha mãe, tudo pelo fascínio de estarem a falar com uma pessoa que está algures num lugar que eles nem sabem onde fica. Mas o que me deixava mais orgulhosa mesmo, era quando as crianças do bairro, diga-se, crianças que não frequentam a escola e não falam português, apareciam e aos poucos começavam a aprender algumas palavras em português e a escrever os seus nomes.

    Não sei como vos explicar, nem como transmitir tudo o que senti com esta experiência, mas é maravilhoso. Tudo é uma lição de vida: a maneira como encaram a vida e o mundo, não tem explicação.

    Vamos para educar e ensinar, mas são eles que nos educam e ensinam a dar valor ao que realmente importa.

    Quando embarcamos nestas experiências queremos mudar o Mundo. Temos que nos mentalizar que isso não acontece, mas pelo menos, a um pequeno grupo vamos fazer a diferença e é a isso que temos de nos agarrar.

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    Como é possível no meio de tanta pobreza e miséria encontrar-se um povo tão maravilhoso, acolhedor e feliz? Desde o primeiro momento que aqui cheguei me senti em casa, todos me receberam de braços abertos, se assim não fosse não tinha prolongado a minha estadia, vinha por 6 meses e acabei por alongar até um ano e meio. É claro que tive de me acostumar a viver sem algumas facilidades e “mordomias” às quais estamos acostumados e não damos o devido valor, como falhas constantes de água e energia. Coisas que para nós nem nos passa pela cabeça que falhem e faltem… Aqui na Missão S. João Baptista em Moatize - Tete, onde vivo, passa-se um pouco de tudo, entre elas temos uma Escola que vai da 1ª à 7ªclasse, o que faz com que apareçam por aqui muitas crianças da escola e não só.

    Crianças que por algum motivo não frequentam escola nenhuma, ou por puro desinteresse deles ou dos pais ou porque vão trabalhar para ganharem mais uns trocos para a família O que faz com que muitas das crianças aqui também não saibam falar português, só falam a língua local, Nyungwe.

    O que eu posso dizer da minha vida aqui?

    Eu vim para Moatize, para dar algum apoio na Rádio Comunitária Dom Bosco, para conseguirmos alguns apoios e fundos, pois como somos uma rádio comunitária não temos meio de subsistência, e necessitamos do apoio de todos os que nos poderem ajudar.

    Mas a verdade é que não podia deixar estas crianças todas aí “à deriva”, muitas das crianças que referi em cima vêm passar o dia aqui à missão, enquanto vou trabalhando elas pintam, brincam e quando tenho tempo vou-lhes dando umas aulas de português, e assim evitamos que passem muito tempo na rua a fazer sabemos lá nós o quê.

    Bem, há tanta coisa para dizer, mas iria alongar muito se escrevesse sobre tudo, tudo.

    Aqui estou em casa, aqui tenho uma família, um pouco diferente de uma família convencional, mas é a minha família, composta por três Padres e alguns pré-aspirantes, e por mais que quisesse já não consigo imaginar a minha vida sem eles e sem África!!!

  • Inês Pinheiro

    by Vanessa Santos | out 31, 2014

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    Viver diariamente a palavra e o testemunho de amor de Deus

    Pediram-me que escrevesse um testemunho sobre a minha experiência de voluntariado em Moçambique, mas fui sempre adiando essa tarefa. Não por não ter tempo ou por me esquecer do pedido, mas porque não sei como descrever o tempo que passei em África e, acima de tudo, por ter medo. Medo das saudades que despertam quando falo destes meses.
    Foi, sem dúvida, a melhor experiência que tive até agora e não há palavras suficientes para algum dia conseguir explicar tudo o que senti e vivi. Parece tão cliché começar o testemunho assim..., mas os clichés existem porque há verdades que as pessoas partilham e que se tornam frases feitas. Mas tenho a certeza que todos os que viveram uma experiência como a minha sentem o mesmo que eu, “melhor experiência que tive até agora”. As aprendizagens, as memórias, os sentimentos, as saudades, isso pode ser diferente mas a marca está lá sempre em todos.

    Bem, mas voltando à minha história… Cheguei a Maputo no dia 12 de abril, depois de mais de doze horas de voos e três escalas. Finalmente estava em Moçambique outra vez, a terra do meu pai, pronta para uma grande aventura. O Padre Bambo e a Mafalda foram buscar-me ao aeroporto e levaram-me para a Visitadoria, onde fiquei durante uma semana. Passeei, conheci várias pessoas, tive um cheirinho de África, mas começava a impacientar-me com tanta espera. Queria ir para Moatize e conhecer a minha nova realidade.

    No dia 17, finalmente, apanhei o autocarro em direção a Tete. Agora sim, ia mesmo começar a aventura. Tive de apanhar dois autocarros, percorrer cerca de 1500 km e esperar mais de 24 horas até chegar a Moatize. No meio, houve a grande aventura de ficar parada no meio do mato com crianças a chorar, fogueiras e mulheres aos gritos por causa das cobras. Tudo isto porque o nosso autocarro avariou a cerca de uma hora e meia de distância de Tete. Só depois de três horas à espera do reboque e duas horas de caminho é que cheguei, “em quatro piscas e passo de caracol”, à Cidade (como mais tarde aprendi que era referida). O irmão Carlos estava à minha espera e, depois de termos deixado a irmã Elsa em casa, levou-me para a Missão, em Moatize, a minha nova casa durante os cinco meses que se avizinhavam. Nessa noite, depois da aventura dos autocarros e de conhecer a casa humilde em que me encontrava, percebi que estava mesmo em África, a 15.000 km de casa, longe de todos os que amava, durante os próximos cinco meses. Assustei-me, se calhar não estava preparada para isso. E agora? Já não podia voltar para trás. No dia a seguir, com o sol tudo parecia diferente mas eu ainda era uma estranha naquele sítio.

    Tive medo de não me conseguir adaptar, até que a Benedita Siqueira (voluntária portuguesa) voltou, no dia de anos dela, houve festa em casa e eu conheci todas as pessoas da comunidade, as irmãs, os rapazes, o Padre Doná... Comecei a sentir-me mais segura.
    Lembro-me perfeitamente do dia em que pensei pela primeira vez “vou ser feliz aqui”. Na segunda-feira, dia 23, roubaram-me, por descuido meu, os dois telemóveis. Estava sozinha em África e sem contacto nenhum com Portugal, desesperei. Mas, por mais incrível que pareça, no dia a seguir acordei, fui dar uma volta com a Beny pela cidade e pela vila e senti que estava realmente no lugar certo. Naquele dia, senti que tinha tomado a decisão correta ao embarcar naquela aventura, nunca antes nada me tinha parecido tão acertado.
    A Beny apresentou-me a todas as pessoas, fez-me a visita guiada por Tete e Moatize, ensinou-me o dia-a-dia da Missão e aos poucos fui encaixando-me naquela rotina africana. Quando dei por mim já fazia parte da Missão. Era a minha casa e a minha família: o Padre Chico, o Padre Doná, o irmão Carlos, os rapazes, o João, o Inácio, o Rosário, o Charlie, o Custódio e o Armando, as irmãs, a irmã Elsa, a irmã Emília e a irmã Maria Amélia. Depois, havia o pessoal da rádio e as crianças, com quem trabalhava diariamente e que me enchiam de alegria.
    Os dias ganharam cor, comecei a absorver todas as caras, todos os sorrisos, todos os gestos. Cada dia era uma nova descoberta, uma nova história, e o meu coração encheu-se de um calor que nunca tinha sentido antes. Não é possível explicar por palavras tudo o que se ganha nesta experiência. Vamos lá para dar e oferecer tudo de nós, mas quando regressamos percebemos que voltamos muito mais ricos do que éramos. Trouxe, na bagagem, um mundo novo, um coração cheio de calor e alegria e um olhar diferente e maduro, e ganhei uma mana, seis irmãos mais novos e muitas amizades.

    Nestes cinco meses que estive em África aprendi muito mais da vida do que tinha aprendido até então. O contacto com uma cultura e uma mentalidade completamente diferentes das minhas ensinou-me a aceitar as diferenças da espécie humana, a enriquecer com os gestos e os sorrisos das crianças e das gentes africanas, a viver diariamente a palavra e o testemunho de amor de Deus. De facto, aprendi a escutar melhor Deus e a viver com Ele todos os dias, sendo na missa, no terço ou nas orações que fazia no meu quarto. Esta experiência aproximou-me ainda mais de Deus e ensinou-me o que Ele tantas vezes me tentou mostrar. Aprendi o que é importante na vida, a dar valor às coisas pequenas e a agradecer por aquilo que tenho. Aprendi a ter paciência, a viver na simplicidade e na tranquilidade, a absorver os momentos... Depois tentei, a todo o custo, imortalizar tudo isso em fotografias, em diários, mas só a memória e o caloroso e feliz silêncio que sinto dentro do coração é que é capaz de fazer juz a tudo o que vivi. Sim, o silêncio de olhos brilhantes das lágrimas a quererem saltar de um coração cheio de saudades e memórias guardadas para o resto da vida. Só quem lá esteve, quem viveu o que eu vivi, é que consegue realmente perceber tudo o que se sente. Troca-se um olhar, um sorriso, e é o suficiente para se saber o que vai dentro do coração do outro.

    Fez no domingo, dia 28 de outubro de 2012, dois meses que regressei de Moçambique, mas sinto que uma parte do meu coração ficou lá e não vai voltar enquanto não regressar a Moatize. Tenho muitas saudades da minha família, dos meus meninos, da minha casa, mas sei que, como se diz por lá, ‘estamos juntos’.

  • Hugo Machado

    by Vanessa Santos | out 31, 2014
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    Foi uma das experiências mais marcantes na minha vida, onde tive a oportunidade e satisfação de participar nalguns momentos únicos da comunidade Salesiana, como foram a receção das relíquias de Dom Bosco e a tomada de posse do novo Provincial, para além de poder conviver na sede da Visitadoria com os vários Salesianos da comunidade de Moçambique e participar nas suas atividades. A minha motivação principal para realizar este voluntariado foi a oportunidade em poder dar o meu contributo para uma Obra que também me acolheu durante dez anos da minha vida, sendo um ex-aluno Salesiano do Colégio dos Órfãos do Porto, tive o privilégio de ser educado sobre os valores católicos e a amorevolezza do sistema educativo Salesiano. O meu sentimento de satisfação por ter contribuído da melhor forma para a Obra Salesiana de Moçambique, onde tive a trabalhar na introdução do novo plano de contas e adequação do programa de contabilidade nas diferentes comunidades salesianas em Moçambique, o que exigiu a minha visita em conjunto com o Stélio (técnico de contas da Visitadoria) a todas as Casas Salesianas para promover ações de formação junto dos Ecónomos e responsáveis pela área contabilística, adicionalmente participei na atualização do manual de procedimentos das áreas financeira, administrativa e contabilística utilizado pela Obra Salesiana de Moçambique, este trabalho permitiu-me testemunhar a relevância do trabalho realizado pelos Salesianos num pais tão genuinamente acolhedor e de um povo que marcou-me pela sua fraternidade e alegria inata, onde senti-me sempre um entre os demais por toda a comunidade Salesiana, que partilhou sempre comigo todos os seus momentos e atividades que foram realizando ao longo do tempo que estive na sede da Visitadoria. O meu sentimento no regresso foi de uma pausa que espero seja curta, para que na volta possa continuar a dar o melhor de mim a favor de uma causa e de um povo com um coração imenso e sorrisos únicos na sinceridade em que expressam a vontade e força de viver.

  • Janete Massuça

    by Vanessa Santos | out 31, 2014

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    Partir em missão é como abraçar alguém, agarrar uma causa, único momento, sentir uma satisfação pura, prazer de se dar. O estar disponível para ser voluntário implica força de vontade, prazer em ajudar, disponibilidade e muitas vezes deixar quem mais amamos para partir. Por vezes, não é fácil, é preciso aceitar o que vem e encarar da maneira mais sincera e simples, é como estender uma mão para dar e outra para receber. Procuramos sorrisos sinceros e esperamos dar o nosso melhor.

    Quando parti em missão para Moçambique ambicionei mudar o mundo e saber que por vezes estamos sozinhos num projecto é difícil, muito difícil por vezes de encarar. No entanto, partilhar experiências faz parte das nossas vivências enquanto voluntários. Vencer dificuldades ajuda-nos a ser mais fortes e a lutar por um mundo melhor. O querer pode tornar possível o poder, por isso aqui deixo o meu testemunho, pois todos nós enquanto Homens e Mulheres deste Mundo detemos competências e aptidões que podemos pôr ao serviço dos outros com o objetivo de um bem comum. Não é necessário o dispêndio de muito tempo, basta apenas umas férias, não se distingue idade, sexo ou raça, estamos todos pelo mesmo e para o mesmo DAR UM POUCO DE NÓS A QUEM PRECISA DE TANTO!

  • Mafalda Mascaranhas

    by Vanessa Santos | out 31, 2014

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    Foram 3 meses, passaram a voar.

    A cada hora surgiam novos desafios, a cada minuto multiplicavam-se os sorrisos, ao fim do dia um coração cheio e ao fim de cada semana um sentimento de missão cumprida.

    O meu nome é Mafalda, tinha 19 anos quando aterrei em Moçambique, em Fevereiro de 2012. Uma aventura estava prestes a começar. Deixei de lado o curso que frequentava e onde não me sentia no caminho certo e parti com uma única certeza: queria ajudar.

    Foram 36 horas de avião para chegar a Maputo onde encontrei o Pe. Leal e o Pe. Bambo que com imensa alegria me acolheram e me levaram até àquela que seria a minha casa nos próximos tempos: a Missão de S. José de Lhanguene.

    Ainda me lembro das primeiras sensações: o calor abrasador em pleno Fevereiro (enquanto Portugal vivia a primeira vaga de frio daquele Inverno morno), a luminosidade e uma alegria enorme de saber que se aterrou no lugar certo.

    Os primeiros dias foram para conhecer a missão, o que por lá se fazia, perceber a ajuda que era necessária, conhecer as pessoas e os costumes e começar a meter mãos à obra.

    Durante o primeiro mês, tudo era novidade. Eram sabores novos (apanhei uma época rica em frutas desconhecidas por terras lusas), pessoas novas, horários novos e muitas alegrias a toda hora. Sobretudo era novo o sentimento de ter uma missão na vida, de acordar de manhã e ter objetivos claros para cada dia. Era especial chegar ao fim do dia sem energia, mas com o coração cheio de pequenos momentos em que se vai construindo um mundo melhor.

    O tempo foi passando e a paixão inicial passou a tranquilidade. Os dias tinham agora uma rotina e conseguia focalizar a minha atenção nas coisas mais importantes. Acordava-se cedinho entre as 5h30 e as 6h para estar presente à hora do pequeno-almoço junto dos meninos do Lar de S. José, seguia-se o "Bom dia" na Escola Comercial e no Centro Profissional, com tempo para o Mata-bicho no entretanto (por cá, mais conhecido como pequeno-almoço).

    A manhã era repartida entre o Departamento de Género da Escola Comercial (com tempo para conversar com os alunos e dar algumas aulas sobre temas como a Puberdade, o HIV/SIDA e a Gravidez na Adolescência) e o Centro Profissional (onde dei uma formação de Primeiros Socorros a cada uma das turmas).

    A hora de almoço, mais descansada, era preenchida com brincadeiras e conversas pelos recreios.

    À tarde era altura de voltar o trabalho. Das 14h às 19h o tempo pura e simplesmente voava entre aulas de alfabetização, apoio ao estudo de Português e Matemática e reuniões/ensaios do oratório.

    Ao fim do dia um momento de paragem e oração antes do Jantar. Mais uma horinha de brincadeira e conversas sobre a vida à luz do céu estrelado típico de lugares onde a "civilização" ainda não conseguiu apagar as luzes do céu.

    Fim-de-semana é tempo para descansar? Bem, depende do ponto de vista. A catequese, a missa (famosa por se estender por várias horas, mas vivida com uma intensidade bastante especial) e o oratório enchiam a missão de adultos e crianças e criavam espaço para alguns dos melhores momentos da semana.

    Durante 3 meses vivi num mundo ao contrário: as terras a norte eram mais quentes, as terras a sul eram mais frias. Não existem estações do ano. O tempo passa a um ritmo diferente, cada minuto é encarado como especial. A cada tempestade as pessoas sorriem e agradecem pela vida (em vez de se revoltarem contra Deus por ficarem sem casa e sem comida). A vida faz sentido na entrega aos outros e não num caminho solitário à conquista de interesses pessoais.

    A experiência de partir em missão, a experiência de entrar numa nova cultura é algo que nos faz superarmos os nossos limites, faz-nos ser mais do que nós, faz-nos crescer, leva-nos a apagar preconceitos e a mudar perspetivas.

    Mais importante do que a vontade de voltar, é a vontade de continuar a ajudar em Moçambique ou aqui mesmo em Lisboa, porque o voluntariado começa aqui mesmo, na nossa comunidade.

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    Viver, assim, para os outros, vale a pena

    Por aqui corre tudo bem. O tempo para parar e mandar notícias é que às vezes não é muito. Bem, a minha experiência por Moçambique começou há 2 meses... e meio e tentar passá-la para um conjunto de palavras é uma missão impossível que vou tentar concretizar da maneira mais próxima do real.

    Todos os dias acordo cedo (às 5h30) e vou acompanhar os meus meninos do Lar no Matabicho e depois levo os pequenos à escola. A seguir tenho o bom dia na Escola Comercial e no Centro Profissional. Depois dou uma aula de saúde no Centro Profissional. Seguem-se aulas do Dpto. do género na escola e rápido, rápido já são 12h e é hora de almoçar (às vezes quando me despacho cedo vou aproveitar o final da manhã com os meus meninos).

    A tarde começa num ritmo lento, já que não tenho oficialmente nada para fazer, mas geralmente vou para o estudo com os meus meninos. Por esta altura já percebem que eu tenho uma grande preferência pelos meninos, que são os rapazes que vivem no Lar (miúdos entre os 11 e os 21, mas que eu trato por meninos, eles reclamam, mas eu sei que eles gostam). Depois segue-se o lanche, as aulas de apoio. Jantar. Recreio da noite e, ups!, lá se foi mais um dia. Chego ao fim do dia sem energias, completamente esgotada, às 21h a única coisa que consigo ver é a cama, mas quando me deito e pouso a cabeça na almofada e revejo todos os sorrisos, os coraçõezitos que foram amolecendo, as brincadeiras, as coisas que ensinei e as coisas que aprendi, toda uma malga de coisas que me enchem o coração até cima e me fazem esboçar um último sorriso ao pensar que viver, assim, para os outros, vale a pena.