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  • Jorge Luz - 2014

    by Vanessa Santos | jan 28, 2015

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    Esta minha missão de voluntariado ao serviço da Fundação Salesianos - Projeto Dom Bosco Vida, em Moçambique, na minha opinião, não poderia ter corrido melhor.  E isto pelos mais variados motivos.

    Vivi em comunidade nas três Casas Salesianas por onde passei o que me permitiu participar em todos os seus atos religiosos e assim aprofundar e aumentar a minha fé.  O ter vivido integrado no dia a dia das Casas permitiu-me também ter ficado com uma maior noção da vida Salesiana que muito se surpreendeu pela positiva. Realmente desenvolvem um trabalho único a favor do ensino, sobretudo profissional.

    Ao chegar ao aeroporto, em Maputo, tinha à minha espera o Padre Francisco Pescador, Diretor da Obra Salesiana da Matola, Obra na qual fiquei uma semana. Esta minha estadia na Matola penso que não estava totalmente prevista, e poder-se-á  ter ficado a dever ao fato da Comunidade Salesiana de Moamba, não ter apresentado, atempadamente,  um projeto sobre o que pretendia que eu fizesse. Ainda estive indigitado para ir para Inharrime, juntamente com o João (voluntário do Algarve que tinha acabado de chegar), mas numa reunião do Conselho Geral (penso que é este o nome) o Sr. Padre Marco - Provincial, determinou que tanto eu como o João fossemos para Moamba e, foi assim que oito dias depois de ter chegado lá fui eu a caminho de Moamba.

    Mas ainda de bem que estive uma semana na Matola. Fui extremamente bem recebido por toda a comunidade e em especial pelo seu Diretor, o Sr. Padre Francisco Pescador que me integrou na comunidade Salesiana assim como na vida local envolvente.

    Na Obra Salesiana da Matola acompanhei as aulas dos cursos profissionais aí ministrados, sem interferir,. Por uma única vez  tive oportunidade de nos "bons dias" falar um pouco sobre o tema "tolerância" para os alunos. Participei ainda na colocação dumas proteções numa ponte e colaborei na tradução de um texto de espanhol para português juntamente com o Padre José Maria. Tomei ainda parte, como convidado, na tomada de posse do novo Provincial de Moçambique, Padre Marco.

    Na Obra Salesiana da Matola acabei também por ser extremamente bem recebido, e onde permaneci duas semanas. Em cumprimento de solicitação do Sr. Provincial elaborei uma proposta de viabilidade e gestão de uma propriedade agrícola pertencente à Comunidade Salesiana de Moamba e que apoia o Curso de Agropecuária da Escola Profissional de Moamba (sob gestão salesiana). Esta propriedade agrícola (machamba) vem apresentando saldo negativo há alguns anos pelo que havia necessidade de identificar as causas. Salvo melhor opinião, penso que consegui elaborar um documento onde essas causas eram detalhadamente identificadas e apresentei soluções para as mesma com um objetivo gradual de sustentabilidade a curto, médio e longo prazo. Ainda tive oportunidade de substituir os professores de informática e de ecologia, em aulas que não poderam dar..

    Claro que não foi só trabalhar em Moamba. Com o Diretor da Obra Salesiana de Moamba, Padre André visitei algumas paróquias à responsabilidade da Comunidade Salesiana de Moamba, fiquei também a conhecer bastante bem a vila em si e ainda fui a Rossano Garcia, uma experiência inesquecível de comboio até à fronteira com a África do Sul.

    A última semana já a passei na Visitadoria onde elaborei para todos os funcionários da mesma um plano de gestão de tempo (diário, semanal, mensal e anual). Estudei os vários posto de trabalho para conhecer o que era pretendido dos mesmos. Após esta análise desenhei os objetivos diários, semanais, mensais e anuais para cada trabalhador dentro de uma fita do tempo. Espero também, com este meu trabalho, ter conseguido contribuir para uma melhor gestão do tempo e assim os trabalhadores da Visitadoria serem mais eficazes e eficientes, logo produzirem mais no mesmo tempo tornando o custo da mão de obra mais barata. Ainda fiz algumas sugestões sobre a gestão das viaturas com o objetivo de redução do seu consumo assim como sugestões para  gestão de armazéns (produtos alimentares, produtos de limpeza, roupa e material informático).

    Como é normal também em Maputo não foi só trabalhar. Ainda visitei o Bairro do Chamanculo, fui a Catembe e visitei com algum pormenor a cidade de Maputo e não quis deixar de ter a experiência de andar de "chapa". Há a realçar o apoio sempre dado pelos Salesianos nestas visitas. Em Maputo fomos apoiados pelos Salesianos da Paróquia de S. José que nos "davam" internos para nos acompanhar, tornando assim tudo mais fácil, o mesmo aconteceu na Matola e em Moamba.

    Só ficou por realizar um contato mais direto com os jovens.

    Em resumo: Uma experiência a repetir.

  • Sara Costa - 2014

    by Vanessa Santos | jan 13, 2015

    Matundo - nascer do dia

    “Primeiro estranha-se, depois entranha-se...” Foi assim a minha primeira experiência de voluntariado em África. É como a música (que em Moçambique se ouve a qualquer hora e em todos os lugares) primeiro estranha-se mas depois parece que o nosso corpo se habitua ao ritmo e sem nos darmos conta começamos a dançar. 

    Estive um mês em Moçambique a trabalhar como voluntária no centro Hakumana, que atende pessoas em situações de grande pobreza em particulares doentes com HIV e suas famílias. O centro é coordenado por religiosos de diferentes congregações que fazem um excelente trabalho em várias áreas (alimentação, saúde, apoio escolar, terapia ocupacional, psicologia, assistência social).

    Terminada esta experiência reconheço o quanto do mundo me era desconhecido até então. Podemos ver fotografias e ouvir histórias de outras gentes, mas senti-las em primeira mão é uma experiência transformadora. Só trabalhando diretamente com estas comunidades nos apercebemos da dimensão de alguns problemas de saúde e sociais, como a pobreza ou a infeção por HIV. Compreendi que sozinhos não podemos mudar o mundo, mas que somos valiosos se aliviarmos um pouco do sofrimento destas pessoas (principalmente num país que tanto precisa de caridade).

    Guardarei comigo o carinho deste povo, em especial das crianças e mães com quem partilhei o meu dia a dia e que me receberam de braços abertos, mesmo sabendo que o que tinha para dar era muito pouco e por muito pouco tempo. Não vou esquecer também a alegria com que se brinca ou se dança sempre, independentemente de tudo o que nos abala (precisamos de muito pouco para sermos felizes). Mais do que tudo, levo comigo na memória as pessoas extraordinárias que conheci, que dedicam a sua vida à caridade e se entregam ao outro de forma apaixonada. As irmãs que me acolheram e com que trabalhei, serão sempre para mim o melhor modelo de generosidade e amor ao próximo. 

    Sara Costa

     
  • Ricardo Mendes - 2014 (Junho)

    by Vanessa Santos | jan 13, 2015

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    “Alunos, tenho uma má notícia para vos dar”.

    “O que se passa professor? Vai ter de ir embora mais cedo? Alguém está doente? Faleceu alguém?”

    “Não. A notícia é precisamente o contrário. Terão de arranjar força para me aturar até ao final do ano lectivo. Ficarei cá até Outubro.”

    “YES! Que fixe! Isso não é nenhuma má notícia, pelo contrário…”

    Foram estas a palavras com que o meu mês anterior começou. Palavras que serviriam para me dar alguma alegria e disfarçar a incerteza que ainda tinha sobre aguentar mais 4 meses cá. Mas, agora a decisão estava definitivamente tomada e nada me poderia fazer voltar atrás.

    Neste momento se nada tivesse sido alterado faltariam dez dias para regressar a casa. E quanto dói pensar nisso. As saudades de facto são tremendas, a necessidade de outro suporte, de desabafar tudo com alguém cara-a-cara é enorme e faz parecer que os meses que ainda faltam serão muito mais complicados que aqueles que já passaram.

    Talvez essa saudade e essa dor tenham feito com que estes quase 2 meses tenham sido cobertos de asneiras da minha parte e talvez também por isso me tenha custado tanto escrever este testemunho. Ao mesmo tempo foram tempos de muita agitação e com coisas sempre novas a acontecer. Duas visitas à Suazilândia, uma peregrinação de 75km “non-stop” até Namaacha e a grande festa de Nossa Senhora Auxiliadora. Momentos cumulados de bênçãos e ao mesmo tempo de grandes falhas e de cedências às tentações por parte deste voluntário.

    Há 6 semanas atrás estávamos (eu e o voluntário alemão) a despedir-nos da Suazilândia. O facto de o outro voluntário ter de renovar o visto de 30 em 30 dias saindo do país dá-nos a oportunidade de visitar outras paragens. E que melhor opção poderia haver do que visitar os Salesianos em Manzini (a maior cidade da Suazilândia, que, ainda assim, deve ser mais pequena que a cidade do Seixal). De facto foi muito interessante ver um trabalho Salesiano totalmente diferente, mas com uma grande importância naquele que deve ser um dos países mais pequenos de África, mas que se encontra bem à frente de Moçambique em termos económicos, sociais e de desenvolvimento. Apesar deste desenvolvimento e dos shopping’s que vão nascendo quase colados uns aos outros, isso não dá casa a várias crianças, adolescentes e jovens que vivem nos subúrbios da cidade de Manzini e que são acolhidos por pequenas casas feitas pelos Salesianos que contratam um casal de senhores para servir de mãe e pai durante o dia para o grupo de cerca de 12 rapazes que vive em cada casa. Isto dá-nos de facto a dimensão da globalidade que é feito pelos Salesianos e como a forma de atuação muda consoante o ambiente. Ainda assim, o objetivo mantém-se: ajudar crianças, jovens e adolescentes.

    De regresso à nossa missão, a amizade com os alunos vai crescendo. Talvez pela falta cada vez mais sentida das amizades em Portugal. Isso traz novas conversas, novas brincadeiras, novas ideias e até como que um novo ambiente. Começam a surgir mensagens de algumas raparigas que mostram algo mais do que amizade pelo voluntário que chega de Portugal e por vezes chega a haver a tentação de dar continuidade a essas mensagens pois às vezes acaba por saber bem sentirmo-nos amados e desejados, quando parece que aqueles que verdadeiramente nos amam estão a 12.000 km de distância.

    Duas semanas passadas da chegada de Manzini e preparamo-nos para a grande peregrinação ao santuário de Nossa Senhora de Fátima em Namaacha (dias 17 e 18). Mais de 75km caminhando uma tarde e uma noite inteira e com apenas duas paragens. Algo que parecia quase impossível, mas que uma dose de fé e alguma loucura me fazia querer passar por esta experiência. O facto é que o que parecia impossível tornou-se possível. Sempre no limite do esforço físico e com bolhas gigantes que me cobriam quase toda a sola, lá consegui chegar ao santuário pelo meu pé e totalmente lavado em lágrimas. Pena foi que as celebrações da peregrinação a partir daí fossem apenas uma miragem, pois o corpo não teve força de se levantar para a via-sacra, a procissão das velas e a adoração durante a noite. Restou a missa dominical, repleta de gente e de festa que culminou assim com mais esta grande aventura.

    Uma semana mais tarde seguir-se-ia a festa de Nossa Senhora Auxiliadora. Primeiro a festa na escola (6ª-feira, dia 23) e depois na paróquia (sábado, dia 24). A festa da escola começou com a eucaristia seguida dum jogo de futebol entre Escola Comercial e Centro de Formação Profissional e duma sessão cultural algo atabalhoada e extensa, mas que provou como este povo sabe de facto dançar e pôr os seus talentos a render. Depois do almoço (também um pouco atabalhoado) e de algum tempo de festa à moda moderna (com música para abanar o esqueleto, como diziam os professores), eu e o outro voluntário aproveitamos o balanço para irmos sair à noite com alguns dos alunos. Foi uma noite não esperada em contexto de missão, mas que ajudou a matar um pouco as saudades de estar num ambiente mais festivo e que mostrou como os moçambicanos quando não há condições para fazer festa, eles criam-nas. Assim, terminámos a noite no meio do bairro do Chamanculo, numa casa que guardava as bebidas, com apenas uma janela com grade onde eram passadas as bebidas e um carro com música em alto volume lá encostado fazia o resto. No dia seguinte, seguia-se a festa da paróquia e não havia tempo para descansar do que tinha sido a festa do dia anterior. Bem cedo eu ia apressar os nossos rapazes da banda que calmamente vestiam a farda quando já deviam estar com os instrumentos prontos a tocar (há coisas que não se podem mudar, e o cumprimento de horários aqui é uma delas). Com mais insistência da minha parte lá consegui metê-los prontos para darmos as primeiras notas e começarmos a concentrar as pessoas para a procissão que foi feita em clima de muita oração e dignidade. Seguiu-se a eucaristia presidida pelo pe. Américo, antigo inspetor, que assim se veio despedir de Moçambique para seguir viagem para Roma onde assumirá o papel de responsável pela região de África e Madagáscar. A tarde foi marcada por mais futebol e por uma sessão cultural bem mais organizada que a do dia anterior. Tudo terminaria com a despedida algo emocionada do pe. Américo e com a limpeza e arrumação para um regresso ao ritmo normal no Domingo.

    Quem diria que passado apenas mais um mês estaria eu de regresso à Suazilândia. Quando estivemos lá da primeira vez falaram-nos de um festival grande de música que ia haver por lá e pareceu que esta era uma oportunidade que os dois voluntários aqui da casa não podiam perder. Por isso, dia 30 estávamos de regresso a Manzini (e a sensação era que nunca de lá tínhamos saído, tal a forma como o tempo passa depressa) para nos dias 31, 1 e 2 irmos ao famoso “Bushfire” (o grande festival de música da Suazilândia). Quando chegámos para o campismo o 1º espanto foi ver a quantidade de pessoas brancas à nossa volta (acho que já não estava habituado). De facto este seria para mim um dos aspetos mais negativos deste festival, o facto de poucas pessoas africanas terem condições monetárias para participar nele. O festival decorreu dentro do que é normal, cerveja (talvez demasiada), música (com bandas que não conhecia mas que agradavam), noites em branco e outros excessos e pecados que fazem parte deste tipo de eventos e desta fase da juventude. Fica o sentimento de gratidão por podermos tirar estes dias num ambiente totalmente diferente e também o sentimento de culpa por todos os excessos que podíamos ter evitado. Fica a certeza que ainda há muito para crescer com Nosso Senhor, sobretudo quando os ambientes nos pressionam a coisas que não são de Deus. Uma nota para aquilo que para mim foi mais positivo: as acções de solidariedade que marcaram todo o festival, sobretudo com muitos fundos a irem para organizações que ajudam crianças órfãs. É bom ver a consciência que ainda há muito por fazer por África e é bom aproveitar estes momentos para consciencializar o mundo disso mesmo. Outra nota final para a excelente organização deste festival que é prova de que quando o povo africano quer fazer algo bem feito, fá-lo.

    Depois de todas estas emoções foi tempo de regressar a casa e começar a corrigir testes (muitos e muitos testes). Agora, com o semestre já terminado, valha-nos o descanso de termos um mês de férias da escola comercial. Ainda assim, os nossos rapazes da primária não terão estas férias e por isso há que continuar com as baterias ligadas.

    Como disse o pe. Francisco Pescador “resta tentar não pensar no mal feito e sim nas boas obras já realizadas pois só assim podemos perceber as graças que Deus vai operando na nossa vida e continuar a cantar as maravilhas que ele faz em nós.”

  • Ricardo Mendes - 2014 (Março)

    by Vanessa Santos | jan 13, 2015

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    Já estão quase dois meses percorridos desde que cheguei a terras moçambicanas e Lhanguene assume-se cada vez como o meu lar. Sem nunca esquecer o que ficou em Portugal, o coração já se vai habituando a que o dia-a-dia seja aqui e estes jovens assumem-se cada vez mais como a minha família.

    Não sou capaz de esquecer uma das frases ditas por um antigo assistente desta casa quando aqui cheguei. Ao ver o meu espanto por conhecer rapazes já jovens de tão baixa estatura, ele dizia “Aqui os moçambicanos crescem por dentro!”. E de facto parece ser verdade. Estes jovens assumem-se cada vez mais como o reflexo dos moçambicanos e esta casa assume-se cada vez como local de crescimento interior. Aqui, longe dos costumes europeus, o crescimento é de facto diferente. Aqui, os rapazes podem não saber a última notícia da qual se fala, mas terão sempre algum tema de conversa. Aqui, podem não saber ainda escrever muito bem ou saber a tabuada de cor, mas sabem cuidar sozinhos da sua roupa, servir os colegas nas refeições e tratar do jardim. Aqui, a preguiça para estudar acumula-se, mas não há preguiça quando se trata de ajudar alguém da comunidade. Aqui, podem usar t-shirts sujas e limpar nelas as mãos, mas não há quem deixe de usar a melhor roupa para ir à missa. Aqui, estes rapazes podem não ter hambúrgueres e carne todos os dias para comer, mas têm o seu arroz com feijão ou repolho garantido que os enche e os deixa satisfeitos. Aqui, podem ainda não saber o Pai-nosso e a Ave-Maria decore, mas sabem certamente a história de D. Bosco e como há tantos homens de Deus a dar a sua vida pelos que mais precisam. Aqui, os rapazes podem não ter o jeito de dizer muitas palavras carinhosas, mas não faltam “obrigados”, abraços e sorrisos.

    É nestes abraços e nestes sorrisos que a minha alegria de residir aqui continua. Não me canso de dar a vida por estes rapazes. Ainda que às vezes a cabeça doa e o corpo também. Ainda que por haja a vontade de começar a gritar com eles sem parar pelas asneiras que fazem. Ainda que muitas vezes eles só nos peçam ajuda porque sabem que não conseguem resolver os TPC’s sozinhos. Ainda que tudo isto aconteça, no final existe sempre um gesto de agradecimento que nos faz querer continuar. Continuar a ensinar os rapazes que mais dificuldades têm na leitura e na escrita, apoiando os restantes nos horários de estudo, sobretudo no inglês e na matemática. Continuar a dar catequese aos jovens que já se preparam para fazer o Crisma no próximo ano e na organização dos retiros de catequese. Continuar na ajuda da preparação de uma sala de informática que servirá para dar cursos de informática e para os nossos alunos consultarem a internet. Continuar também nas aulas de música aos rapazes que formam a nossa banda aqui do lar. E continuar com uma tarefa mais recente que é a de dar aulas de Formação Humana.

    As saudades obviamente também vão continuando. Queremos estar aqui, estando lá. Queremos lembrar-nos dos daqui, não esquecendo os de lá. É um rodopiar de emoções constante, mas que termina sempre sabendo com a consciência que o meu tempo aqui é este e não posso em qualquer minuto desperdiça-lo pelo que ficou para trás ou pelo que está para vir a 12.000 km de distância. Deus vai-me sustentando e os momentos de oração tornam-se cada vez mais sentidos, sobretudo cada eucaristia. O esforço de acompanhar a comunidade na sua oração continua, muitas vezes quebrado pelo cansaço de acordar às 5h para ter que rezar Laudes.

    É assim que continuo a oferecer e a minha vida a estes rapazes que muitas dores de cabeça e alegrias me dão, a estes alunos e catequisandos que vão confiando em cada ensinamento deste professor/catequista, às crianças que também por aqui passam no oratório e que tantas fotos me pedem para tirar, a esta comunidade que tão bem me tem acolhido e a Nosso Senhor que nunca me abandona.


    Estamos juntos!

  • Ricardo Mendes - 2014 (Fevereiro)

    by Vanessa Santos | jan 13, 2015
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    Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças

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    Posso dizer que já há muitos anos que o desejo missionário existia dentro de mim. A vontade de mudar o mundo para melhor era uma vontade constante, mas estava preso à comodidade e às seguranças que existiam no meu mundo e, por isso, a ideia de ir para África trabalhar com os que mais necessitam não passava de um sonho. Depois de terminada a minha licenciatura em Terapia da Fala, foi inspirado nas palavras do Papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude no Rio de Janeiro e mais tarde na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium que decidi romper com tudo o que me prendia e dar passos definitivos e concretos para concretizar a minha missão ad gentes. Foi assim que no dia 19 de Janeiro, depois de uma preparação cuidada, através da Fundação D. Bosco – Projeto Vida e da Fundação para a Fé e Cooperação, parti do aeroporto de Lisboa rumo à Paróquia-Missão de S. José de Lhanguene, em Maputo.

    Quando aterrei em Maputo o termómetro marcava 26ºC e não demorei a perceber ‘no terreno’ que todas as camisolas com que trazia vestidas, para me proteger do frio lisboeta, de nada me serviriam. O choque inicial não foi dramático como me diziam ser, talvez por estar já à espera do pior, mas ainda assim era impossível que as ruas fizessem parecer com que estávamos numa capital de um país ou mesmo numa cidade. A luz na estrada era pouca, o estado da estrada não era de todo o melhor, as pessoas sentavam-se à beira da estrada, onde existia lixo que se misturava com a areia, esperando que alguém lhes comprasse uma garrafa de Coca-cola por 20 meticais. Aqui em casa, vim encontrar-me com uma pequena comunidade religiosa, constituída por 2 padres e 3 irmãos Salesianos. Ao nosso lado começava, no dia seguinte por visitar as duas camaratas dos rapazes que iríamos acolher, cada uma com mais de 30 camas. Cada rapaz teria direito a uma cama, um cacifo para guardar todos os seus pertences pessoais e uma carteira na sala de estudo onde podiam colocar todo o material escolar, certamente mais do que muitos poderiam ter em casa.

    Assim começava a primeira semana, a conhecer e a preparar, com a ajuda dos assistentes, tudo o que era necessário para a chegada de cerca de 60 rapazes que aqui viriam viver aqui para terem uma oportunidade de estudar. O entusiasmo pela novidade não parava e havia a sensação de ser a preparação de um dos momentos mais marcantes da minha vida. Na semana seguinte as saudades já começavam a surgir, o sentimento de não saber muito bem o que fazer e por onde ajudar começava a aparecer, mas tudo ia sendo suportado através das partilhas animadas com os assistentes e com a ajuda da oração comunitária diária. Tudo haveria de se compor ainda mais com a chegada dos miúdos e começo das aulas, no dia 2 de Fevereiro. Não demorei muito tempo para perceber as dificuldades escolares que muitos apresentavam, sobretudo ao nível da leitura e escrita, área onde eu melhor podia intervir. Desde aí o trabalho não tem parado, não só na ajuda escolar, como também como catequista e nas aulas de solfejo. É assim que tento cada dia ajudar estes rapazes a crescerem. “Esta casa serve para vocês crescerem”, dizia o pe. António, “é importante que saiam daqui não só bons alunos como boas pessoas”, concluía o irmão Gomes.

    A sensação de gratificação cresce a cada dia, através dos sorrisos brincadeiras e conversas. É verdade que, por vezes, este sentimento ainda é abalado por algumas saudades e frustração quando não conseguimos cumprir o esperado. Contudo, essa frustração faz-me perceber a importância de quando me disseram “não queiras mudar o mundo pelas tuas forças”, pois o verdadeiro objetivo que pode fazer a diferença é entregarmo-nos a cada criança com o Amor de Deus, o amor que levou D. Bosco a construir os Salesianos. Só isto pode fazer a diferença porque é esta entrega que fica, enquanto nós vamos.

    Por tudo isto, termino dizendo que tem sido fantástico estar nesta casa; tem sido fantástico fazer parte da obra que D. Bosco quis edificar e que continua tão viva; tem sido fantástico fazer parte da vida destes rapazes. E se nada ficar retido dentro das suas cabeças da minha presença, que fique guardado nos seus corações que em 2014 um jovem, por vontade de Deus, quis sair de Portugal para lhes entregar um pouco da sua vida.


    Deus pede-nos tudo, mas ao mesmo tempo dá-nos tudo

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  • Benedita Siqueira - 2013

    by Vanessa Santos | out 31, 2014

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    “Como é possível no meio de tanta pobreza e miséria encontrar-se um povo tão maravilhoso, acolhedor e feliz? Desde o primeiro momento que aqui cheguei me senti em casa, todos me receberam de braços abertos, se assim não fosse não tinha prolongado a minha estadia, vinha por 6 meses e acabei por alongar até um ano e meio. É claro que tive de me acostumar a viver sem algumas facilidades e “mordomias” às quais estamos acostumados e não damos o devido valor, como falhas constantes de água e energia. Coisas que para nós nem nos passa pela cabeça que falhem e faltem… Aqui na Missão S. João Baptista em Moatize - Tete, onde vivo, passa-se um pouco de tudo, entre elas temos uma Escola que vai da 1ª à 7ªclasse, o que faz com que apareçam por aqui muitas crianças da escola e não só.

    Crianças que por algum motivo não frequentam escola nenhuma, ou por puro desinteresse deles ou dos pais ou porque vão trabalhar para ganharem mais uns trocos para a família O que faz com que muitas das crianças aqui também não saibam falar português, só falam a língua local, Nyungwe.

    O que eu posso dizer da minha vida aqui?

    Eu vim para Moatize, para dar algum apoio na Rádio Comunitária Dom Bosco, para conseguirmos alguns apoios e fundos, pois como somos uma rádio comunitária não temos meio de subsistência, e necessitamos do apoio de todos os que nos poderem ajudar.

    Mas a verdade é que não podia deixar estas crianças todas aí “à deriva”, muitas das crianças que referi em cima vêm passar o dia aqui à missão, enquanto vou trabalhando elas pintam, brincam e quando tenho tempo vou-lhes dando umas aulas de português, e assim evitamos que passem muito tempo na rua a fazer sabemos lá nós o quê.

    Bem, há tanta coisa para dizer, mas iria alongar muito se escrevesse sobre tudo, tudo.

    Aqui estou em casa, aqui tenho uma família, um pouco diferente de uma família convencional, mas é a minha família, composta por três Padres e alguns pré-aspirantes, e por mais que quisesse já não consigo imaginar a minha vida sem eles e sem África!!!”

  • Natália Pita - 2013

    by Vanessa Santos | out 31, 2014
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    Moçambique: a aventura começou num sonho! Desde criança que alimentava a quimera de, um dia, poder pisar solo africano e viver com “aquelas” pessoas. Aos poucos, a intenção foi amadurecendo e, finalmente ganhou condições e asas para se consolidar. Após a preparação, chegou o momento de partir, apesar da nostalgia da despedida, crescia o ânimo e a ansiedade de lá chegar. Após aterrar, senti-me logo muito bem recebida. Comecei a conhecer as pessoas ligadas à Missão de S. José de Lhanguene, em Maputo, onde desenvolvi a minha ação. Conheci os contextos dos lares, escolas, paróquia, centro juvenil, instituto, província, bairros, famílias, amigos de amigos… as pessoas conquistaram-me pela sua simplicidade, alegria e simpatia. Rapidamente comecei a sentir-me em família. Os dias, que começavam muito cedo, permitiram que eu tivesse o privilégio de desenvolver uma série de atividades. Entre os atendimentos individuais, as sessões de grupo, a colaboração na criação de programas/projetos, avaliações cognitivas, formação humana para os animadores, apoio ao estudo, apoio nas atividades do Centro Juvenil, havia ainda tempo para estar, observar, conhecer novas formas de brincar, visitar locais, ouvir histórias… Durante 6 semanas apaixonei-me, ainda mais, pelo prazer de atender, cuidar, ouvir e orientar pessoas. Ser psicóloga em Moçambique não é tão diferente de o ser em Portugal. Mas algumas realidades, necessidades, vivências e características da cultura fizeram-me ir para além dos meus horizontes, colocar-me na pele, no coração e na mente das crianças e dos jovens que encontrei. Tudo isto fez-me “ser mais”, recebendo muito mais do que o pouco que dava. Senti, em variados momentos, que estava onde D. Bosco também estaria: cresci como educadora salesiana. Senti na pele, que a melhor forma de formar crianças e jovens é educar com o coração, fazer que eles se sintam amados e aceites, tal como eles são. A melhor forma de corrigir é “com carinho e amor”: se os conquistarmos, ganharmos a sua confiança e respeito, teremos o caminho feito para lhes transmitirmos tudo o resto: gosto pelo estudo, pelo trabalho, em aceitar e cumprir as regras sociais… E a verdade é que este método resulta mesmo!! Até agora não conheci outro método tão eficaz. Aprendi muito com estes jovens, com os salesianos que me acolheram, com cada pessoa que se cruzou no meu caminho. A simplicidade dos gestos, os sorrisos largos, alegres, verdadeiros e contagiantes são imagens que guardo para sempre na minha memória e, no meu coração, fica todo o carinho, gratidão, amor e alegria. Muito mais havia por fazer, aos poucos fui ganhando a consciência de que não poderia fazer tudo quanto gostaria. O ideal seria lá estar por mais tempo, para poder fazer mais. Mas voltei feliz e realizada, com a sensação de que fiz tudo o que estava ao meu alcance. Fazer pouco é fazer muito. Dar-se é receber muito mais. Esta é uma “aventura” que todo o ser humano deveria experimentar… aqui fica o desafio! A aventura começa num sonho…